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No começo foi o espanto com a possibilidade de uma nova palavra - efêmera, volátil e poderosa - e a forte sensação de que em alguns meses tudo aquilo poderia se reduzir a apenas alguns fósseis de bits perdidos, assim como os restos de uma cidade abandonada no meio do sertão de Pernambuco.

Não foi muito fácil viver aquele começo em que átomos e bits começaram a disputa pela ocupação do mesmo lugar na história, ao mesmo tempo. Se de um lado o furacão Web convocava todo um mundo analógico a mostrar a sua cara digital, do outro uma pequena grande massa global engrossava o seu canto de revolta contra uma sociedade binária que crescia ao seu redor.

Os mascates digitais elegeram como padrão a efemeridade dos padrões e na guerra pela supremacia de seus produtos acabaram deflagrando uma nova ordem onde ficou ainda mais difícil a compreensão da vida no planeta. Vivia-se uma realidade muito curta no tempo, um estado de coisas que durava apenas o necessário para que fosse desenvolvido um próximo release.

Releases de hardware, software, políticos, sociais, legais, institucionais, enfim, de toda a espécie. O presente, o tempo, a realidade, tudo parecia nos escapar. Carregávamos todos a contradição e o contraste, o cansaço e o privilégio de viver aquele fim de milênio.

A passagem do século se aproximava e a teoria do caos continuava a sinalizar que o futuro continuava impenetrável mas que tudo tendia a se estabilizar dentro de uma oscilação dinâmica - o reveillon do ano 2.000 estava garantido. Havia quase uma certeza de que nenhum cometa doido viria varrer a poeira binária de fim de século, antes da hora. Tudo seria assimilado, e o homem apenas continuaria a caminhar, solitário e triste, por uma nova estrada binária, cheia de novas promessas.

E assim foi. Depois de algum tempo de viagem por aquele mundo novo, atravessando países sem estradas e cidades sem ruas, por onde apenas bits ordinários e bêbados trafegavam impunemente, o homem começou a se adaptar.

Quando passou definitivamente o pânico, todos trocaram o controle remoto da TV pelos bookmarks, colocaram @ em seus nomes e jamais se consumiu tanto hard disk em toda a história para se poder viver. Indivíduos e empresas correram voluptuosamente para a rede, que se transformou num grande picadeiro digital onde informação, cultura, comércio, sexo, marketing, propaganda, tudo se misturava e se confundia.

A rede passou a ser o novo point onde todos se encontravam para ensaiar o grande happening de fim de milênio. Existencialismo, beatniks, rock and roll, hippies, todos acabaram se encontrando na rede para viver e morrer naqueles dias que antecediam le fin du siècle. E quase tudo foi ressuscitado, de Artaud ao filme "The Net", passando pela comemoração dos "Cem Anos de Cinema".

Os velhos hippies diminuiram as doses, se tornaram executivos, pularam para a rede e faturaram com ela. Seus filhos yuppies, que antes desfilavam em seus carros do ano, numa espécie de conflito de geração às avessas, também saltaram para a rede. As igrejas proliferaram mais ainda, e também usaram e abusaram da rede para aumentar seu poder sobre o planeta. Generation-x, Wired, Internet, Unabomber, Igreja, tudo se transformou em um grande amálgama sem forma diluído pelos nós da rede.

Em meio a tudo isso encontro em Maresias um estranho sujeito chamado Thomas G. Marasco que me entrega um CD-R e diz:

"Toma estes textos, Passenger, transforma em uma novela interativa e põe na Web. Carta branca, cara. Vai, coloca Tristessa na rede". Apesar de tudo aquilo me parecer ainda muito impregnado da náusea sartreana, não hesitei.

Porto Piano, junho de 2016
Passenger

 


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