![]() |
|
||||
Antoine Gustave Marasco toma o seu digestif e pede a conta. Sai pelo Boulevard de Montparnasse, cruza o Luxembourg, St.Germain-des-Prés, Tuileries, Place Vendôme, toma a Rue de La Paix e chega ao número 14 do Boulevard des Capucines. Em todo o trajeto ele carrega nos bolsos apenas imagens estáticas, pinturas, fotos e a ansiedade de assistir a primeira sessão de cinema. Entra no Grand Café, se dirige ao Salão Indiano e paga 33 francos pelo privilégio histórico de ser o primeiro espectador, de assistir à primeira sessão comercial de cinema. Os filmes não passam de representações da vida burguesa (L´Arrosseur Arrose, Partie d´écarte, L´Arrivée d'un Train a la Ciotat, Barque Sortant du Port, Repas de Bébé) no dia-a-dia da Belle Epoque. Nenhum dura mais do que um minuto. Mas o caminho de volta já não é o mesmo. Ao invés de imagens estáticas, ele sai de lá com um mundo em movimento, apressado, gravado na retina. Corte seco para a primeira década do século seguinte. Surgem os primeiros cinemas. Antoine e outros espectadores passam a frequentar as grandes salas de espetáculos que começam a ser inauguradas no mundo. São verdadeiros lugares de sonho, imensos, luxuosos, às vezes construídos para receber até 6.000 espectadores, como o Gaumont Palace, em Paris. Mas o cinema não pode ainda sequer ser chamado de arte. Em 1908 é rodado na França o primeiro filme pornográfico de que se tem registro, a Empregada da Hospedaria. Anos 10. Abertura em fusão. Europa e Estados Unidos O cinema começa a se deslocar para os Estados Unidos, surge a Fox, a United Artist e Chaplin. Griffith faz os seus primeiros filmes, e o cinema ensaia os seus primeiros passos como a nova arte. No final da década o homem já começa a perceber que pode fazer um cinema com os seus fantasmas e delírios, e em 1919 surge o filme O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, que marca um período rapidamente falido do chamado expressionismo alemão. Loucos anos 20. Close no rosto humano. Uma navalha secciona o olho. A revolução proletária de 1917 molda o período clássico do cinema russo, e revela-se o gênio de Eisenstein (Greve, Potemkim, Outubro e Linha Geral), Pudovkin (A Mãe e Tempestade sobre a Ásia), Dovjenko (A Terra) e Dziga Vertov, documentando a época com a sua teoria da câmera-olho. Em 1921 Grifith roda o primeiro longa-metragem sonoro Dream Street, mas somente em 1927 a voz encontra a imagem de forma sincronizada. Em 8 de outubro de 1927 o cantor All Jolson estréia o Cantor de Jazz, e inaugura a era do som. Nos loucos anos 20 Paris se torna o centro do agito cultural, mas o cinema só começa a acontecer com a apresentação de Un Chien Undalou, por Luis Buñuel (com co-produção de Salvador Dali), em 1928 e L´Âge d´Or, em 1930. A primeira imagem que Buñuel joga na tela é a de uma navalha de barba seccionando um ôlho humano. É o encontro da imagem em movimento com o surrealismo. O mundo intelectual francês fica chocado, mas o cinema começa a encontrar o seu caminho. Anos 30. Travelling lateral na depressão. A década de 30 é marcada fortemente pelo grande impulso do cinema falado. Apesar da depressão, o som apressou a massificacão do cinema e mudou tudo. Roteiristas, diretores e atores que não se adaptam à nova técnica, simplesmente são substituídos. Algo parecido com a revolução digital na qual estamos imersos. Com a depressão econômica em background o cinema falado começa a decolar - como a multimídia na década de 90. Fritz Lang, John Ford, Frank Capra, King Vidor, nos Estados Unidos. René Clair, Marcel Carné, Jean Vigo, Julien Duvivier, o brasileiro Mário Peixoto, na França. Greta Garbo e Marlene Dietrich seduzem o mundo. Fred Astaire e Ginger Rogers fazem filmes jamais igualados no gênero. Anos 40. Carro rápido, da esquerda para a direita, lateral. Guerra e pós-guerra. Em 1941 estréia Cidadão Kane, Orson Welles é comparado a Proust e a sua revolução estética inventa o cinema moderno, trazendo junto o melhor que já havia no cinema clássico. Em 1945 os estúdios são trocados por cenários naturais, os atores profissionais por amadores, a manipulação da imagem pelo registro da realidade, e a isso se dá o nome de Neo-realismo. Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, e Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, avisam ao mundo que existe um novo cinema na Itália, e esse movimento influencia todo o cinema moderno de Fellini, Visconti, Antonioni. Anos 50. Fusão do enredo e do não-enredo na procura do homem. As pessoas começam a dançar com o cinema, ingenuamente, sem saber o que estaria por vir. Nos Estados Unidos aparecem Marilyn Monroe, Marlon Brando e James Dean. Juventude Transviada não renova na forma, mas faz a cabeça de uma geração. James Dean morre e vira mito. O filme Sementes da Violência faz o rock explodir. No final dos 50 o enredo é deixado para segundo plano e a realidade passa a ser apresentada de forma não linear, descontínua, lúdica. A certeza desaparece, e a ordem passa a ser a ambiguidade, a obra aberta, na tentativa de busca do próprio homem. É a Nouvelle-Vague francesa. É o cinema de Resnais, Godard, Chabrol, Malle, Vadim e Truffaut. Revolucionários anos 60. Plano aéreo. O Sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão. O espectador precisa definitivamente decidir: ou vai ao cinema para pensar ou para se divertir. Não, a palavra divertir não cabe nessa época - é alienação mesmo. Ou ele reflete sobre a própria existência e se engaja, ou se aliena. Não há meio termo. Faz-se de tudo com uma câmara: Resnais esculpe, Rosselini filosofa, Visconti conta histórias, Godard escreve poemas, Fellini sonha, Bergman invoca a morte, Antonioni disserta sobre o tédio, Buñuel continua surrealista e Glauber delira, entre tantos outros. No Brasil - além de Glauber - Ruy Guerra, Rogério Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos, Luiz Sérgio Person, Roberto Santos, Walter Lima Júnior, Arnaldo Jabor, Anselmo Duarte, deixam fortes marcas na gloriosa década. Amorfos anos 70. Crise de criação. O cinema atravessa uma crise de criação, mas mesmo assim surgem Spielberg, DePalma, Lucas, Coppola, Scorsese. Anos 80. Travelling aéreo no homem deixando a auto-estrada e caminhando para o deserto. Na década de 80 Wim Wenders faz o ser humano mergulhar nos mais profundos abismos da solidão humana, em uma espécie de revival dos 60 de Antonioni. Os personagens solitários e desajustados de Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch, estranhos, movem-se pela década através de uma história sem história - a nossa própria história. Anos 90. O contraste entre a disponibilidade e a saturação da imagem. O constraste entre a disponibilidade da imagem e a sua saturação pela própria abundância denuncia uma inflação visual que pode estar atrofiando a nossa capacidade de perceber o mundo e as pessoas à nossa volta. Quando as pessoas já pensam em um retorno romântico à palavra escrita e à narração oral da história, surge Tarantino com a poesia da violência, e todos acreditamos que ainda é possível inventar, reinventar, recopiar, e criar grandes obras. Aguardemos. Ainda faltam 5 anos para o final da década.
Últimos planos da última sequência do roteiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. 317. Carro veloz A câmara puxa pela caatinga, em corrida louca, Manuel e Rosa. Ruídos de rezas de beatos crescendo, cânticos, berros de vaca, tiros, o ruído do rio, sons. A câmara afasta-se e vai deixando os dois cada vez mais perdidos na caatinga. Os sons crescem e Manuel e Rosa ficam cada vez menores. 318. Plano aéreo O mar surge, envolve, domina o mundo.
|
|
Arte | Comportamento
| Negócios | Ciência & Tecnologia
| Poesia & Prosa |
Passage 2000 | Surf Sites | Busca | Entrevistas | Bits
About