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"The computer drawing on the video screen--what is it? It exists only on that piece of glass. It is ephemeral. It needs to be on a piece of paper to be a picture."

David Hockney, em seu livro “That's the Way I See It”.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desfragmente-se, sem preconceitos, para essa nova literatura visual que está sendo concebida nas oficinas binárias deste nosso tempo de anjos e loucos.

Não deixe que os séculos e séculos daquela arte palpável e maravilhosa, com textura, sensível ao toque, o impeça de apreciar com desprendimento essa nova arte volátil, efêmera, só porque ela é exposta em um pedaço de vidro.

Se a arte já foi um dia riscada nas pedras da cavernas, porque não pode hoje ser exposta em um pedaço de vidro luminoso ? Não seja preconceituoso.

É claro que essa arte digital, criança como é, ainda está totalmente impregnada dos conhecimentos adquiridos na produção da arte analógica. Falamos em pinturas digitais, revistas online, livros eletrônicos... Não conseguimos sequer nos separar das expressões que usamos para especificar a arte não digital que conhecemos.

Mas isso não é motivo para se rejeitar sumariamente esse novo "belo" que existe apenas no estado de ligado ou desligado. Mesmo porque as polêmicas e o ceticismo dos que lutam contra essa nova arte passam muito longe do balcão das grandes transformações pelas quais o que conhecemos por arte está passando.

Na medida em que o homem passa a se expressar através de bits, cada vez mais mais dado e formato se confundem, cada vez mais forma e conteúdo passam a fazer parte de um só todo, ficando praticamente impossível enxergar as linhas da nova fronteira entre arte, informação, notícia ou propaganda.

Quanto mais os jornais e revistas correm para despejar na rede suas versões online, mais nos perdemos nesse amálgama binário que ainda não conseguimos decifrar muito bem.

Quando mais museus e galerias correm para expor suas obras na rede, mais a nova e a velha arte se confundem, e ficam reduzidos apenas a códigos binários expostos em um pedaço de vidro, sem sentido algum.

Essa nova literatura visual, esse novo código, onde forma e conteúdo se confundem amalgamados em uma carpintaria puramente eletrônica, com certeza está mais para o surfista que sabe conviver com o caos da onda do que para o executivo que não consegue sobreviver com as suas velhas regras neste edge of chaos.

Parece que quanto mais o homem consome banda digital mais ele se afoga nas ondas da rede. E haja banda.

Se a nova arte digital deve ou não ser aceita como arte, se ela é legítima ou não, por enquanto todas as discussões sobre o assunto estão passando muito distante.

Na medida em que o artista assimilar e dominar esse novo environment e as suas novas ferramentas criadoras, certamente essa arte passará a ser imaginativa, criadora, poderosa, como foi a de Michelangelo ou Van Gogh.

As experiências em realidade virtual ainda estão apenas engatinhando, mas aos poucos elas não só nos permitirão recriar o passado como fazer aparecer um imaginário mundo novo, onde mouses e teclados serão substituídos pelo olhar, pelos movimentos do corpo, pela respiração e quem sabe um dia até pela mente.

Alex Nabuco,
28 de novembro de 1996.

 

Esqueçam meu teatro ! A arte não é essencial ! Nem os artistas !

... Ela não é essencial como a filosofia ou a religião ! Tantos a perseguem inutilmente, porque ela é sem necessidade.

Trecho de “Virtuose”, peça inédita de José Vicente , transcrito de matéria da Folha Ilustrada de 2/11/96)

 


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