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“Pô, meu amor, você vive agora com esse micro portátil ! Já não bastava aquele teu PC Octium da tua casa. Agora fica aí, parecendo as pessoas que adoravam mostrar o Celular grudado no corpo, quando eu era adolescente. Que modinha boba !”.

“Fernandinha, isso aqui não é um computador, já te falei. E a onda do Celular, como você bem sabe, foi um deslumbre burguês com uma novidade tecnológica. Só isso.”

“Ah é, é ? Qué sabê: prá mim, isso aí é a mesma coisa. É normal viver com um micro grudado? Você não é um andróide !”

“Meu amor, não é um micro esse aparelho. O Cardápio Digital é apenas uma interface que possibilita que eu me ligue à Internet e me comunique com ela. Só.”

“Eu vi uma dondoca no cabelereiro com um parecido. Mas o dela era diferente, não tinha teclado... E nem abria em duas partes como esse aí: era só uma telinha colorida, cheia de imagens.”

“Provávelmente era uma Surf Machine. É uma interface para a Internet também, embora menos poderosa do que este Cardápio Digital. Elas servem para surfar na World Wide Web. São bem mais baratas e não aceitam o Shark 3-D, só aquele Java sem graça. Com as Surf Machine´s, não dá para interagir muito, nem enviar mails, ou realizar conversas em tempo real. Só navegar mesmo, ver as figuras se mexendo, no máximo.”

“Qual é o preço destas máquininhas ?”

“Cerca de R$50,00. Mas quebram fácil, principalmente as de Taiwan. Já um Cardápio Digital deste custa em torno de R$200,00, no mínimo.”

“Mas como é que essas geringonças portáteis se ligam à Internet ?”

“Via um satélite servidor da empresa New Sky, que criou este sistema e monopoliza a produção das interfaces. O satélite faz a comunicação entre milhões de terminais sobre toda a superfície terrestre. O melhor de tudo é que não precisamos pagar por esse serviço: o preço já está embutido no valor da interface. Através dele podemos nos comunicar intanstâneamente com milhões de indivíduos em todo o planeta, sem ter que pagar nada a mais por isso.”

“Ei, peraí: não foi o dono dessa empresa aí, a New Sky, que foi acusado de ter mandado matar aquele velho milionário, Sir William Gates ?”

“Ninguém conseguiu provar nada. O velho Gates sumiu sem deixar nenhum vestígio. Alguns dizem que suicidou-se, pulou pela janela. Outros desconfiam que foi assassinado, como o ricão Marc Andernsen, que foi encontrado enforcado no mastro de um navio. Um mistério.”

“Estranho. Sabe, amor, isso aí pra mim continua sendo um computador, uma máquina de dados. E eu conheço algo muito importante, essencial para você, que não pode contactar por aí.”

“Ah, é ? O quê?”

“O calor de sua querida namorada. Então, amor, você faz o favor de desligar esse micro, parar de pensar nisso, e fica um pouco comigo ?”

. Splish... Smack... Splash...


Fernando Villela,
28 de novembro de 1996



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