Antes da viagem o silêncio do monitor me fascina, me
enfeitiça, me fala de lugares em que eu gostaria de estar, de pessoas que eu gostaria de
conhecer, de uma outra forma de mim mesmo em que gostaria de existir e que me está
disponível.
Começo então a inventar linhas imaginárias, teias de bits, e a enxergar a possibilidade
de estar nesses lugares, rodar madrugadas inteiras viajando, conhecer essas pessoas,
existir nesse espaço e nesse tempo ...
Olho para o screen apagado, para a possibilidade da viagem, e procuro uma explicação.
Enquanto isso, lá fora, a tarde morre, sem muitas explicações.
Sonhador parto então para a viagem, navego entre bits e cores esperando sempre encontrar
a palavra definitiva, o gesto, a explicação, nem que seja em algum beco escuro da
manhã.
Através do monitor contemplo agora o sol se pondo em Santa Mônica, e tenho uma vontade
imensa de arranhar a noite com as minhas unhas de bits, esculpidas por esse novo tempo em
que vivo.
Navego devorado pela minha própria ansiedade, iluminado pela minha própria sede de luz,
e às vezes penso tocar o sentido disso tudo, penso estar alcançando a poeira dos
primeiros passos ...
... mas em um ponto qualquer do viagem descubro que não importa a estrada, o caminho é
feito sempre do mesmo desenrolar de máscaras e gestos repetidos.
A grande rede, com as suas teias movediças, às vezes nos engole e não nos deixa
perceber a vida, que lá fora passa como música que não conseguimos ouvir. Enquanto na
rede os bits trafegam solitários, à procura de nada, nas esquinas da noite os corpos se
encontram, se tocam.
Desfragmentamo-nos diariamente, como se pudéssemos preencher todos os espaços que
desvendamos no ciberespaço, e enquanto isso, todos os dias, esqueçamos de saudar o sol
que está se pondo.
Lá em Santa Mônica o sol já se pôs e cai agora uma chuva fina, que não consegue
molhar as imagens que desfilam diante de meus olhos perturbados.
No silêncio dos bits procuro a voz do tempo, mas acabo sempre calando a minha revolta.
Tímido, escondo o rosto e a alma, tento esconder os meus fantasmas e continuo a navegar
por supervias que não levam a lugar algum.
Em cada despedida minha, em cada shut down, parece que existe um ensaio da morte adiada,
transformando a vida em uma poesia que não termina nunca.
No fim de tudo vem a vertigem de navegar noites e noites, rodando madrugadas inteiras
atrás de um rosto, de uma palavra, de um lugar, e de descobrir que os mesmos bits
enferrujados que circulam nas veias de anjos binários circulam em nossas veias
enferrujadas pelo tempo.
Todo instante viajado tem a sua cor, a sua vida, o seu mistério e um pouco de eternidade.
Thomas G. Marasco,
25 de agosto de 1996
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