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"A supervia da informação vai ser construída por um bando de desenhistas de software muito produtivos, mas suspeito deles como grupo".

David Gelernter, professor de Ciência da Computação da Universidade de Yale e uma das vítimas do Unabomber, em declaração ao New York Times, citado na Folha de São Paulo).


 


 

 

 

 

 

 

 



Átomos e bits parecem não poder ocupar o mesmo lugar na história, ao mesmo tempo.

De um lado o furacão Web continua assolando o planeta, convocando os maiores representantes da era analógica a mostrar a sua cara - às vezes meio desajeitada - no screen digital. Agências de publicidade, revistas, editoras, grandes corporações multinacionais, todos caem de quatro e partem para a caça de webmasters, sem muito tempo para arranjar a casa. A evolução foi mais rápida do que se esperava.

Do outro lado uma pequena grande parte da massa global não conectada começa a engrossar o seu canto de revolta contra os bits. São pessoas que não enxergam o futuro sob a perspectiva do aumento da largura de banda, das animações em real time do HotJava ou das emoções do VRML.

Elas não vivem o sonho digital dos plugados, não enxergam o teclado e o mouse como uma extensão de suas vidas e não compartilham das sociedades virtuais em formação.

Não fazem muita questão de ver as suas idéias armazenadas em mídia magnética, não sabem como configurar modens, não conhecem os parâmetros do Winsock e jamais se depararam com mensagens do tipo The Server Does Not Have a DNS Entry.

Parece coisa meio antiga essa revolta contra a máquina - só que essas pessoas também tem alguns bons novos motivos. Não são argumentos baseados em hipertexto e sequer devem ser convertidos a zeros e uns. Invasão de privacidade, robotização e escravidão tecnológica fazem parte de uma retórica já meio fora de moda.

Elas falam agora de disponibilidade de informação redundante, de acesso a informação inútil, dos exageros de marketing da indústria da informática, de desemprego maciço, de colapso econômico global, de guerra entre pobres e ricos, de desastre ambiental - e responsabilizam a tirania dos governos e das grandes corporações, que impõem novos tipos de tecnologia sem possibilidade de questionamentos, escolhas ou qualquer modalidade de consulta social.

Nos Estados Unidos, onde efetivamente existe a maior concentração de usuários e fornecedores, a maioria silenciosa dos sem-micro começa a ganhar espaço na mídia, com argumentos reforçados por números provenientes das mais diversas fontes de pesquisas, que relatam coisas do tipo: apenas um quarto da população americana tem computador em casa, 55% não querem ter e 57% da população não conseguem explicar e não entendem o que é a Internet.

Se esses números forem extrapolados para as nações menos privilegiadas tecnologicamente, será fácil constatar que essas pessoas não são apenas primatas românticos. Elas trabalham duro, e caminham todos os dias pelas calçadas de New York, Paris, São Paulo ou qualquer outra grande capital do planeta.

O neoludismo começa a virar moda e parece inevitável, nestes últimos quatro anos que nos separam do final do milênio, um conflito entre conectados e desplugados, que deverá deflagrar uma revisão da revolução digital na qual estamos imersos.

Não. Isto não é um poema em homenagem aos desplugados, nem uma balada dedicada aos desconectados e muito menos um rascunho do manifesto dos sem-micro.

É o enquadramento de cena do fim de milênio que é mesmo meio surrealista.

Enquanto em primeiro plano os neoluditas começam a protestar - como os tecelões desempregados do início do século 19 ao serem substituídos pelas máquinas que lhes roubaram os empregos -, em background os conectados apenas mudam de endereço e são rebatizados com @ em seus cartões de visitas.

Os primeiros, encurralados por redes, placas, chips, kits e softwares - que há algum tempo deixaram os escritórios e agora estão invadindo as suas casas - começam a fazer barulho, e às vezes são violentos.

Quanto aos outros, às vezes me parece que apenas dançamos, com fones de ouvido, uma música que só nós conseguimos ouvir.

The Passenger

Novembro de 1995


 

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