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Na passagem de 999 para 1.000 o homem não passou a noite festejando nas ruas - mas uma noite tensa - por causa de um apocalípse que não aconteceu. Não vingaram as profecias e não aconteceram os cometas e meteoros prometidos, mas mesmo assim a maior parte da civilização ocidental levou 33 anos para se livrar do pânico e do desespero da passagem do reveillon do primeiro para o segundo milênio. Quanto à passagem de 1.999 para 2.000, apesar das profecias de grupos religiosos e seitas apocalípticas de todo o mundo, fortalecidas neste milênio pelas palavras de Nostradamus, algo parecido não deverá se repetir. Tudo indica que Einstein errou: Deus jogou os dados. Um fim de mundo global parece pouco provável, a não ser o contínuo, diário e inevitável desaparecimento individual do homem. Além disso não vingaram também as profecias dos escritores deste último século do milênio: o rebelde Hal 9000 de Kubrick foi impiedosamente domesticado. Não aconteceu o Big Brother de Orwell - os computadores não vieram para controlar o homem, mas para acabar com as hierarquias e controles - e não vivemos o admirável mundo novo de Huxley. Outras tantas, que nem vale a pena citar, também não vingaram. Apesar da Teoria do Caos nos sinalizar que o futuro continuará impenetrável, garantindo assim o mistério do imprevisível, atrevo-me a lhes dizer que caos e ordem continuarão a conviver dentro de uma oscilação dinâmica suportável por mais algum tempo. Acreditem. O reveillon de 2.000 está ... ... razoavelmente garantido. Não existe nenhuma grande ameaça concreta no horizonte a não ser as doenças, a pobreza, as guerras, o desemprego, ou seja, tudo aquilo que sempre existiu e que tem sido assimilado através do tempo pelos indivíduos e por seus governos num processo contínuo de negociação da própria sobrevivência. A própria entrega do homem a poderosas drogas vai estar sob um controle melhor que o de hoje, e apesar do abismo de classes, da divergência de religiões, formas de governo, linguagem e tantas outras diferenças, tudo aponta para para um acordo riscado na pedra e processado por uma nova engenharia social que pode tornar viável um contrato social global. Tecnologicamente e socialmente o mundo caminha para uma aproximação entre o ciberespaço e o mundo físico - e são grandes as possibilidades de uma boa convivência entre os dois. O desemprego tecnológico - o grande fantasma - será absorvido pela própria tecnologia que o está gerando hoje, e indivíduos, Estados e iniciativa privada farão a grande negociação de fim de milênio, de forma a escolher as melhores possibilidades com as melhores alternativas de pobreza possível. Ou seja: tudo será assimilado, e o homem caminhará mais pobre e mais triste, com os bolsos cheios de bits, por uma estrada binária, cheia de novas promessas. Por isso, caro leitor, a partir deste primeiro editorial do ano - um pouco atrasado - você está convidado a deixar as sua expectativas, visões, anseios, idéias, previsões ou manchetes que gostaria de ver estampadas nos jornais, nas esquinas do planeta, nessa provável e inevitável passagem de 1999 para 2.000. Por via das dúvidas a minha já está lá, pois de repente os bruxos estão certos, e um imprevisível cometa doido pode vir mesmo varrer a poeira binária deste nosso tempo - antes da hora. Para deixar a sua mensagem, basta clicar no ícone Passage 2000.
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