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Um ano de viagens por um mundo novo, sem rotas pré-determinadas, estados sem autoridades constituídas, países sem estradas e cidades sem ruas, por onde bits ordinários e bêbados trafegam sempre impunemente.

O quanto andamos até agora neste ano de “on the road digital ? O quanto aprendemos a caminhar por esses novos caminhos ?

Não muito. Parece que de tanto comandarmos os nossos hardwares com códigos que sabidamente serão obedecidos, eles se vingam e nos induzem também a pensar como eles, com o código deles, como máquina. E com isso não conseguimos crescer além de limites já definidos, além do que já conhecemos.

Nesses últimos doze meses trocamos o controle remoto pelos bookmarks, colocamos @ em nossos nomes e jamais consumimos tanto espaço em nossos hard disks para sermos tão pessoais, mas mesmo assim corremos o risco de uma volta ao passado com a metáfora do computador de rede, com os terminais burros de $ 500,00.

Indivíduos e empresas correram voluptuosamente para a rede, para o grande picadeiro digital onde informação, marketing, propaganda, tudo se mistura e se confunde. As home pages iniciais foram substituidas por sites, que depois de flagrados em seu constrangedor primitivismo tecnológico começam a ser substituidos por páginas dinâmicas, dotadas de processamento inteligente. Mas isso ainda é pouco. Ou quase nada.

Porém apesar de precária, a rede ainda é o caminho mais curto para o marketing da era do indivíduo, é a única ferramenta que pode hoje identificar um indivíduo no meio da massa anônima, apressada, sem rosto.
Como ? Com gente competente e software.

Nestes tempos de Web os antigos filósofos, intelectuais, artistas, visionários, estão sendo substituidos por cientistas, biólogos, o que me parece até razoável, numa época em que o software passa a ocupar um espaço tão grande. Mas Artaud já esteve por aqui antes de nós, em seus delírios.

Olhemos tudo isso com um pouco de desprendimento, de poesia, de contemplação, pois o grande mistério, o grande fascínio, continua ser mesmo viver em um mundo em que nos sensibilizamos com histórias como “ O Carteiro e o Poeta”, e ao mesmo tempo vemos surgir o dinheiro eletrônico, os smart chips, o one-to-one ...

Penso que isso só é possível porque todo instante, apesar de único, tem mesmo a sua cor, a sua vida, o seu mistério e principalmente um pouco de eternidade.


The Passenger, 26 de novembro de 1996



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