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A Palavra Digital


Em agosto de 1995, quando a Internet no Brasil ainda era a movida a lenha, o Luis Leiria ja caçava material nacional para a revista da qual mais tarde seria seu editor. O primeiro numero da Internet World brasileira ainda não estava nas bancas e o assunto era a matéria de capa do segundo numero - A Palavra Digital.

No meio de tanta gente doida, ele acabou encontrando um pessoal também muito estranho que mantinha uma revista online chamada Passage e estava colocando no ar um livro de nome Tristessa.

Fez algumas perguntas e elas foram respondidas com a convicção e a perplexidade de quem via, naqueles dias, a história começar a correr através de uma barra de rolamentos planetária.

O resultado da entrevista fez parte do conteúdo da matéria - A Palavra Digital - matéria de capa da revista Internet World n 2, de setembro de 1995.



1)Como lhe veio a idéia de fazer a Passage? Vi pelo editorial que seu espírito é totalmente diferente de uma publicação convencional; mas vai ter uma periodicidade definida?

Faço parte de um grupo de pessoas que acreditam estar vivendo o epicentro da transição entre a era industrial e a era digital, imerso dentro de uma sociedade em processo permanente de descontinuação.

Os historiadores do proximo século verão os anos de 95 e 96 como o momento crítico - os anos em que as transformações efetivamente aconteceram - de uma revolução que teve início no começo da década de 80 e que terminará, quem sabe, lá pelo fim da segunda década do terceiro milênio.

Decidimos que vale a pena registrar isso em uma revista online, no Brasil. Estamos abertos a colaboradores.

Quanto a periodicidade pensamos em atualizá-la mensalmente, se possível.

2) Você pensa em procurar patrocinadores? Como se poderá manter a Passage?

Estamos na Internet, e esta mídia tem outras regras. A revista precisa primeiro adquirir consistência no conteúdo e tomar forma, antes de pensarmos em patrocinadores. Mas certamente ela será mantida por patrocinadores.

3) Quantas pessoas trabalham no projeto e sua execução?

Quatro pessoas trabalham no projeto, com idades de 21, 30, 42 e 52 anos. Eu sou o de 52, e isso já responde a sua pergunta de número 11.

São profissionais especializados em design, programacão, marketing, fotografia, áudio, vídeo e tudo o mais que se tem usado na mídia interativa pré-Web.

Além disso são pessoas que estudam a rede, sua cultura, o processo de transformação da sociedade que está sendo deflagrado por ela, e muito especialmente o impacto da Web no marketing atual.

4) Como você definiria as características da nova mídia que foi criada pela Internet e a WWW?

Essas características já tem sido tão amplamente explicitadas pela mídia impressa e principalmente dentro da propria Internet, que já podem até serem consideradas meio clichês. Cito a seguir algumas tendências que considero inevitáveis, expostas sem qualquer ordem, prioridade ou hierarquia.

Aliás, a hierarquia paroquial e militar que conhecemos hoje nas empresas já é um dos conceitos que tende a desaparecer, por absoluta incompatibilidade com a comunicação na rede.

Tudo indica que os menores se tornarão cada vez mais poderosos na economia global, desde que tenham boas idéias e sejam rápidos. Os pequenos poderão sair do fundo do quintal e se tornarem globais, e os grandes poderão desaparecer de cena ou serem absorvidos por outros mais ágeis. Eventualmente poderão até voltarem para o fundo de seus quintais, se a sua reengenharia falhar.

Desaparecerão os grandes intermediários em um grande número de transações, principalmente nas áreas de cinema, vídeo, livros, revistas, música, jornais. Para que procurar um distribuidor, no futuro, se você poderá colocar o seu filme online para 1.000 salas de espetáculos, em todo o planeta ? Para que procurar um editor e distribuidor de seu livro, se você mesmo pode produzi-lo e distribui-lo a custos infinitamente mais baixos ?

Também é muito difícil imaginar que daqui há uma ou duas décadas jornais ainda estejam sendo impressos em gráficas de alguns milhões de dólares e depois transportados em Kombis para serem entregues em nossa casa no meio da noite. Os custos cairão tao drasticamente na distribuição e divulgacao online, e o jornal sairá tão caro que apenas uma pequena faixa da população poderá se dar a esse luxo. Portanto, muito mais árvores serão poupadas quando chegar esse tempo.

A televisão na forma em que conhecemos hoje deverá procurar novas soluções de sobrevivência econômica. É um pouco difícil imaginar essa TV daqui há alguns anos ainda apoiada no esquema de publicidade que existe hoje, pois possivelmente haverá mais gente conectada na rede do que na televisão.

O nossa casa, que hoje já está crescendo como um local de trabalho, escola e entretenimento, será também um centro de comércio. E isso obrigará as empresas a repensarem o seu marketing, produtos, embalagens e sistema de entrega. Consequentemente serão alterados os nossos conceitos de espaço e tempo para trabalhar, vender, armazenar, educar, etc...

A tecnologia da informação reverterá uma situação que pode ser considerada uma aberração na historia da humanidade: o nosso modelo de sociedade industrial. O contraste entre o homem agrário, arando a terra debaixo do relógio de sol, e o homem industrial, que inventou o horário e o local de trabalho. Mas esse já é um detalhe que deve ficar para um artigo específico.

Se estivessemos em ambiente Web eu creditaria com os devidos links algumas das pessoas que tão bem expressaram essas idéias em seus artigos disponíveis na Internet.

5) A Passage quer aproveitar ao máximo a nova linguagem da hipermídia e toda a sua plasticidade. Você acha que a hipermídia condenou as publicações comuns, ou haverá sempre espaço para as duas? O papel esta mesmo condenado? (eu posso ser conservador, mas nunca vi gastar tanto papel quanto nos tempos da informática...)

Não acredito que tão breve passemos a viver sem o charme e a sensualidade da textura do papel.

O teatro tem alguns milhares de anos e as pessoas continuam a lotar as salas de espetáculos todas as semanas. O rádio, o cinema, a televisão e o videocassete, nascidos em épocas diferentes, continuam a conviver pacificamente.

Penso que haverá sempre espaço para as duas. O que se modificará, certamente, é a relação do espaço ocupado entre elas. Será enorme a quantidade de publicações digitais se comparadas com a tradicional mídia impressa.

O que está acontecendo hoje é que os grandes jornais e revistas do mundo estão disponibilizando uma versão online com os seus principais tópicos, em paralelo ao original da mídia impressa.

Algumas revistas, como a Digital Video americana, por exemplo - que é a maior revista especializada em vídeo digital - está colocando disponível uma versão full, paralelamente a edição impressa. Se você acessar http://www.dv.com, vai ler a edição de setembro da revista, que chegará para nós em formato impresso daqui há um mês, se não tivermos problemas de distribuição.

Em muito pouco tempo as pessoas estarão questionando os exorbitantes custos de divulgação e distribuição de uma publicação na mídia impressa, e pensando mais seriamente no custo infinitamente mais barato de se publicar na rede.

6) Pelo editorial, fica claro que você da preferência ao texto e ao acesso rapido a informação que ao design. Como equilibrar essas duas coisas: páginas bonitas mas também ágeis?

Por enquanto é dificil, devido a limitação da taxa de transferência de dados.

Se você economiza na inserção de imagens, ganha em velocidade de acesso mas perde em informação e design. Se você faz uma boa página, com um belo design, ninguem vai ter saco para ficar esperando carregar as imagens. É preciso dosar as duas situações, explorar ao maximo os recursos do HTML e principalmente projetar uma navegação inteligente.

Som e movimento online ? Nem pensar por enquanto, a não ser que o arquivo seja colocado disponível para download e posterior leitura off-line.

Quando se puder mover blocos de informação com maior velocidade dentro da rede, esse problema deixará de existir, e possivelmente teremos uma grande TV (?) interativa, onde tudo acontecerá.

7) O livro "Tristessa" vai ser seu? Voce pode adiantar um pouco de seu conteudo? Será o primeiro livro de ficção a ser publicado no Brasil neste novo meio? O leitor só poderá lê-lo on line?

O livro é de minha autoria e parte dele já está na rede, em endereco não divulgado. Se você quiser dar uma olhada para conhecer o conteúdo, procure no endereço http://www.quattro.com.br/tristessa/index.htm.

O que você vai encontrar é o primeiro bloco de textos que estará disponível. Considere apenas os textos. A parte gráfica ainda será desenvolvida e a navegação que lá está não me convenceu. Por isso está sendo revista e modificada.

Quanto as suas características, pretende uma novela seriada, uma espécie de work-in-progress, com atualizações sem periodicidade definida no momento.

A mistura do passado e do presente, ficção e realidade, hipertexto e interatividade, reforçados pela poderosa conectividade planetaria é que criarão o mistério da narrativa.

Tudo isso me faz crer que é possivel colocar na rede uma literatura com a audiência de uma novela das oito, só que disponível para o planeta, com versões em 3 ou 4 idiomas. Em verdade penso que lá na frente, em algum ponto do futuro, esse tipo de leitura vai se fundir com a tradicional novela, em algum modelo de "TV" interativa.

Conforme digo no prefácio, a entrada será franca para todos que estiverem presos nesta imensa teia de bits. Não diria que é um livro somente para raros e loucos, se bem que um pouco de cada um desses atributos certamente vai ajudar na leitura.

Não conheço nenhum livro brasileiro na rede, portanto acredito que seja o primeiro, mas nao acho que isso tenha qualquer importancia. Gostaria sim é que ele efetivamente trouxesse algo de novo a essa nova mídia e conseguisse apontar para a literatura de alguns anos há frente.

Tenho observado toda a ficçao em hipertexto disponível na rede, e posso assegurar a voçê que nada foi ainda escrito no planeta Web que realmente tenha rompido com a narrativa tradicional.

Quanto a possibilidade de leitura off-line, vou pensar na possibilidade do leitor dar um download no arquivo para lê-lo desconectado. Mas nao sei se vale a pena. Um pouco do tesão dessa leitura está no fato de ser online. Além disso vão se perder os links a outros sites, que poderão as vezes serem fundamentais na compreensão do texto.

8) Na Passage fala-se da nova publicidade, em que o consumidor é ativo, e pode escolher o que quer ver, ao contrário da publicidade compulsória da televisão. Você acha que as empresas já entenderam que no futuro vai ser assim e começaram a se adaptar a isso? Ou vão criar uma forma de impor a publicidade de consumidor passivo também na Internet ou na futura superhighway?

Boa pergunta, mas acho que ninguém tem essa resposta hoje. Nem os cientistas do MIT.

Que eles vão tentar manter a passividade do consumidor, ninguém tem dúvida. Se eles vão conseguir, é outra historia.

Eu gostaria ingenuamente de pensar que ao invés de empresas e agências de propaganda racharem a cabeça em campanhas publicitárias para manter a passividade do consumidor, eles procurassem crescer junto com esse novo indivíduo que está se informando nas teias da Internet. Mas é pedir muito.

9) A explosão da Internet vai criar também uma explosão de criatividade na rede, no Brasil? A criatividade represada pelo custo altíssimo das publicações tradicionais vai se soltar agora?

A quase totalidade do pessoal que está hoje na Internet no Brasil vem da área técnica. Com exceção dos grandes jornais, o pessoal de criação (artes em geral) ainda não descobriu a Internet.

Como não é muito complicado raciocinar em termos de HTML e relativamente barato divulgar na rede, penso que quando descobrirem teremos uma quantidade muito grande de surpresas. Mas vai demorar um pouco de tempo para que as pessoas possam assimilar os recursos da hipermídia na rede e gerar coisas efetivamente novas.

10) Você poderia me indicar outras pessoas que estejam com projetos de publicações na Net?

Não mantenho contato com ninguem que tenha projetos independentes nesse sentido.

11) Ultima, indiscreta (desculpe): qual a sua idade?

Já respondida lá em cima. 52 anos.



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