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Já antes do final do milênio nove entre os dez homens mais ricos do mundo pertenciam ao mundo da informática. Desenvolviam software, fabricavam chips, hardware, investiam em telecomunicações, enfim, eram eles que faziam o dinheiro rolar no circuito bits & bytes.

Os novos mascates não estavam nem um pouco preocupados - talvez não soubessem sequer o que estava acontecendo - com o fato de que toda aquela transformação tecnológica estava colocando as pessoas em um mundo que elas não estavam preparadas para viver.

A falta de informação, aliada à quebra contínua de modelos e padrões de hardware e software - elegendo como padrão a efemeridade dos padrões - criou um novo ambiente profissional de stress e perplexidade onde o homem perdeu o rumo de casa.

Tudo funcionava praticamente à base de computadores e grande parte das pessoas deixaram de ter pesadelos durante o sono para tê-los ao acordar, na hora de ir para o serviço e enfrentar as suas novas ferramentas de trabalho - pessoais. O stress gerado foi mundo grande, principalmente nos funcionários do governo e das grandes corporações.

Não houve o tempo necessário para adaptação e treinamento e naqueles dias o homem perdeu o seu desejo de revolução. A paixão e o culto pela festa da vida ficaram um pouco fora do moda. Uma apatia geral ocupou um grande espaço e a paixão perdeu o seu papel de vocação criadora.

E enquanto isso os mascates digitais apenas continuavam alimentar as guerras particulares sobre a supremacia dos seus produtos - novos releases de browsers, java, html dinâmico, network computer, tecnologia push e outras bobagens daquele tempo - encurtando cada vez mais o tempo de vida dos softwares e hardwares e colocando cada vez mais apavorado e em pânico o pobre do homem.

Foram necessárias duas gerações para que seus filhos começassem a restaurar tudo o que foi subtraído de seus pais e avós, e conseguissem retomar uma nova ordem das coisas. Aos poucos conseguiram sair daquela condição de aquisição passiva de padrões para passar a interferir na nova sociedade, através de uma assimilação daquilo tudo e depois de uma exploração pessoal da realidade.

- Põe o teu filho na escola, cara !

 

Fernanda Damiani
Uma tarde de ressaca, em Porto Piano, maio de 2016.

 


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