O sol se esconde, e o dia cansado se entrega diante da noite
imensa. Num canto do crepúsculo, os olhos voltados para o poente, pondero sobre a aridez
dos caminhos por onde trilhei. Não sei se vou, não sei se fico.
Sobre a tarde que morre apenas deito o meu corpo cheio de
perguntas e deixo-me envelhecer lentamente entre velhas anotações, discos e livros, dos
quais não consigo me desfazer.
Escuro agora. A noite solta-me as mãos, os pés, mostra-me a
partida e dá-me asas para voar dentro da névoa do passado. Sou livre então para correr,
gritar e beijar a brisa, sou livre para penetrar a loucura, invadir as noites da minha
adolescência e bater as minhas asas empalhadas além das estrelas.
Que me impede de ser um anjo doido e flutuar sobre as tardes
coloridas da minha adolescência ? Que me impede de ser um anjo doido e procurar as
respostas nas tardes ensolaradas daquele tempo que parecia sem fim ?
Uma música misteriosa me convoca. Parto sem medo.

Em casa os retratos e objetos da minha infância ainda estão espalhados pelas gavetas e
armários da memória, preservando o mistério dos primeiros anos. Fotografias, livros,
discos, revistas, ruas, não são apenas sombras, são objetos que reconstituem e moldam a
transformação de meu rosto.
Durante o dia as portas e janelas todas abertas deixam entrar uma
luz muita branca que ilumina por igual todos os mistérios, mas não os desvenda. Do lado
de fora o grande areal branco e a velha casa de madeira ainda me espreitam, na medida em
que vasculho os abismos da memória com um desenho de todo esse tempo nos bolsos, tentando
descobrir o começo desta grande festa.

As gôndolas descem o Grand Canale, rumo ao poente. O pôr-do-sol é uma advertência e um
aviso de morte que nunca enxergamos. Somos sempre felizes no último lugar onde estivemos,
ou no próximo para onde vamos - só agora percebo isso.
O suor das máscaras do último carnaval de Veneza escorre por
entre os meus dedos e lembro que estou em pleno processo de resgate da sucata do passado.
Os farrapos de hoje, amanhã já serão apenas saudade.
O vinho acabou, a última gôndola já desapareceu no fim do
canal, é hora de me despedir. Amanhã tomo um avião para Roma, só para assistir um show
do Dire Straits. Em seguida retorno a Paris, walking in the wild west end, to meet my wild
best friend.

Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e
arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros
enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos
bolsos vazios.
Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que
caminhamos para trás.

O céu derramou hoje um pouco de azul em meus olhos e as velhas ruas da infância morreram
todas em mim.
Fui criança novamente, e vi o menino de calças curtas e
suspensórios, descendo inutilmente a ladeira quando lá em cima já haviam lhe dito que
ela rolara para o abismo. Vi o menino de pés sonhadores e cabelos despenteados descendo a
velha rua da escola, os papagaios ainda enganchados nos fios, e os professores já
escondendo a solução.
Começa a escurecer. O sol já se pôs por trás dos edifícios,
o horizonte sangra novamente em escamas de nuvens, como nas tardes ensolaradas da minha
adolescência, e vestido de solidão me integro na noite.

Dois homens, com cordas nas mãos, laçaram ontem o cãozinho que
latia nas manhãs alegres da minha infância, e de repente o meu crepúsculo fez-se névoa
e morte.
Mas uma música misteriosa salta agora das pautas negras da noite
e faz dançar a nata das estrelas. Ressuscito então de incêndios que não chegaram a
queimar e penetro esse mundo de mágicos.
A noite me oferece o punhal, a loucura e a angústia de ser
livre. As estrelas me oferecem o ritmo, me dão o compasso deste meu cantar e o desespero
de voar alto.
- Para que permanecer ?

Mais bonito que o teu sorriso, Marcela, somente a alegria dos papagaios coloridos que eu
empinava nas manhãs alegres da minha infância.
Fechadas as portas e janelas da nossa casa, atravesso agora a moldura, como os outros. Do
outro lado, frenéticos, as suas caras refletem em vitrais barrocos. Penetro a grande
festa pelos lados, como quem entra em um cenário. E o meu cenário é cada vez mais o
retrato de toda uma época, e a minha loucura a loucura de todo um tempo, de anjos e de
doidos.
A noite finalmente solta-me as mãos, os pés, mostra-me o
caminho, e dá-me asas para voar por dentro da névoa que eu mesmo criei. Estou livre para
correr, gritar e beijar a noite, estou livre para penetrar a loucura, invadir a madrugada
e bater as minhas asas empalhadas bem distante das pessoas comuns.
Uma música misteriosa me convoca. Vou começar a arrumar a minha
mala de estrelas e me preparar para partir.
Agora que sei que tudo acabou, que aquilo não vai voltar mais, que a manhã que vem não
vai levar facilmente a dor que a noite fez nascer, me vem a lembrança de uma palavra, a
recordação qualquer de um olhar, de um gesto, e constato que ficaram faltando palavras,
olhares, gestos...
Acordo sobressaltado no meio da noite, tateio na escuridão do
quarto, mas só encontro o vazio de uma cama de hotel.
Um ruído de passos na calçada rasga o silêncio de uma noite
antiga.

É tarde. As luzes de Paris adormecem nos braços da neblina. A última puta deixou a
Place du Tertre, desceu as escadarias do Sacré-Coeur, e eu fiquei plasmado apenas no eco
dos seus passos.