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No começo deste ano, em pleno verão de Maresias, um sujeito chamado Thomas G. Marasco passou uma semana me mostrando textos e contando histórias.

Nos conhecemos na casa de Paula, uma grande amiga, que depois de ralar muito como advogada, modelo e fotógrafa, desistiu de tudo e agora se identifica apenas como uma bruxa de fim de milênio. Administra uma misteriosa pousada, de frente para o mar de Maresias, onde se reunem nos fins de semana Thomas e os personagens sobre os quais passou uma semana me falando.

Me contou que já tinha tentado transformar sua história em novela de televisão, mas havia sido sumariamente rejeitada por tratar de assuntos que não se identificavam com a realidade brasileira. Sugeri então que a transformasse em um livro de ficção interativa e o publicasse em CD-ROM, mas me respondeu que precisava ganhar dinheiro e não tinha tempo para isso.

"Toma os textos, Passenger, transforma em uma novela interativa e põe na Web".

Em seguida viajou para Paris, e nunca mais encontrei o cara.

Somente há dois meses atrás é que li os textos. A história é sobre o próprio Thomas e um grupo de pessoas que misturam poesia, tecnologia, teatro de Artaud, vida digital, Felini, beatniks, fotografia, realidade virtual e principalmente muito sexo, smart drugs e rock and roll, tudo isso no caldeirão mágico e imprevisível desta cultura maluca de fim de milênio. Gostei da história e resolvi transformá-la em alguma coisa da qual as outras pessoas pudessem participar comigo.

Esse livro se chama Tristessa, e hoje ele já está com algumas de suas pernas presas a esta grande teia de bits.

Dos textos que tenho em mãos retirei alguns trechos em que não vi nada senão poesia, e agora os espalho desordenadamente neste espaço, sem nenhum critério.



O sol se esconde, e o dia cansado se entrega diante da noite imensa. Num canto do crepúsculo, os olhos voltados para o poente, pondero sobre a aridez dos caminhos por onde trilhei. Não sei se vou, não sei se fico.

Sobre a tarde que morre apenas deito o meu corpo cheio de perguntas e deixo-me envelhecer lentamente entre velhas anotações, discos e livros, dos quais não consigo me desfazer.

Escuro agora. A noite solta-me as mãos, os pés, mostra-me a partida e dá-me asas para voar dentro da névoa do passado. Sou livre então para correr, gritar e beijar a brisa, sou livre para penetrar a loucura, invadir as noites da minha adolescência e bater as minhas asas empalhadas além das estrelas.

Que me impede de ser um anjo doido e flutuar sobre as tardes coloridas da minha adolescência ? Que me impede de ser um anjo doido e procurar as respostas nas tardes ensolaradas daquele tempo que parecia sem fim ?

Uma música misteriosa me convoca. Parto sem medo.



Em casa os retratos e objetos da minha infância ainda estão espalhados pelas gavetas e armários da memória, preservando o mistério dos primeiros anos. Fotografias, livros, discos, revistas, ruas, não são apenas sombras, são objetos que reconstituem e moldam a transformação de meu rosto.

Durante o dia as portas e janelas todas abertas deixam entrar uma luz muita branca que ilumina por igual todos os mistérios, mas não os desvenda. Do lado de fora o grande areal branco e a velha casa de madeira ainda me espreitam, na medida em que vasculho os abismos da memória com um desenho de todo esse tempo nos bolsos, tentando descobrir o começo desta grande festa.



As gôndolas descem o Grand Canale, rumo ao poente. O pôr-do-sol é uma advertência e um aviso de morte que nunca enxergamos. Somos sempre felizes no último lugar onde estivemos, ou no próximo para onde vamos - só agora percebo isso.

O suor das máscaras do último carnaval de Veneza escorre por entre os meus dedos e lembro que estou em pleno processo de resgate da sucata do passado. Os farrapos de hoje, amanhã já serão apenas saudade.

O vinho acabou, a última gôndola já desapareceu no fim do canal, é hora de me despedir. Amanhã tomo um avião para Roma, só para assistir um show do Dire Straits. Em seguida retorno a Paris, walking in the wild west end, to meet my wild best friend.



Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos bolsos vazios.

Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que caminhamos para trás.



O céu derramou hoje um pouco de azul em meus olhos e as velhas ruas da infância morreram todas em mim.

Fui criança novamente, e vi o menino de calças curtas e suspensórios, descendo inutilmente a ladeira quando lá em cima já haviam lhe dito que ela rolara para o abismo. Vi o menino de pés sonhadores e cabelos despenteados descendo a velha rua da escola, os papagaios ainda enganchados nos fios, e os professores já escondendo a solução.

Começa a escurecer. O sol já se pôs por trás dos edifícios, o horizonte sangra novamente em escamas de nuvens, como nas tardes ensolaradas da minha adolescência, e vestido de solidão me integro na noite.


Dois homens, com cordas nas mãos, laçaram ontem o cãozinho que latia nas manhãs alegres da minha infância, e de repente o meu crepúsculo fez-se névoa e morte.

Mas uma música misteriosa salta agora das pautas negras da noite e faz dançar a nata das estrelas. Ressuscito então de incêndios que não chegaram a queimar e penetro esse mundo de mágicos.

A noite me oferece o punhal, a loucura e a angústia de ser livre. As estrelas me oferecem o ritmo, me dão o compasso deste meu cantar e o desespero de voar alto.

- Para que permanecer ?



Mais bonito que o teu sorriso, Marcela, somente a alegria dos papagaios coloridos que eu empinava nas manhãs alegres da minha infância.


Fechadas as portas e janelas da nossa casa, atravesso agora a moldura, como os outros. Do outro lado, frenéticos, as suas caras refletem em vitrais barrocos. Penetro a grande festa pelos lados, como quem entra em um cenário. E o meu cenário é cada vez mais o retrato de toda uma época, e a minha loucura a loucura de todo um tempo, de anjos e de doidos.

A noite finalmente solta-me as mãos, os pés, mostra-me o caminho, e dá-me asas para voar por dentro da névoa que eu mesmo criei. Estou livre para correr, gritar e beijar a noite, estou livre para penetrar a loucura, invadir a madrugada e bater as minhas asas empalhadas bem distante das pessoas comuns.

Uma música misteriosa me convoca. Vou começar a arrumar a minha mala de estrelas e me preparar para partir.


Agora que sei que tudo acabou, que aquilo não vai voltar mais, que a manhã que vem não vai levar facilmente a dor que a noite fez nascer, me vem a lembrança de uma palavra, a recordação qualquer de um olhar, de um gesto, e constato que ficaram faltando palavras, olhares, gestos...

Acordo sobressaltado no meio da noite, tateio na escuridão do quarto, mas só encontro o vazio de uma cama de hotel.

Um ruído de passos na calçada rasga o silêncio de uma noite antiga.



É tarde. As luzes de Paris adormecem nos braços da neblina. A última puta deixou a Place du Tertre, desceu as escadarias do Sacré-Coeur, e eu fiquei plasmado apenas no eco dos seus passos.


Esse é Thomas G. Marasco, o sujeito que que eu conheci e que costuma se registrar nos hotéis do planeta como arquiteto de mídia interativa. A última coisa que me disse foi uma frase que leu na Folha de São Paulo, sem citar o autor e o artigo.

"O olhar contemporâneo tem pressa".

Partiu para Paris com os bolsos cheios de projetos em ambiente de realidade virtual, e um pouco de poesia.




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