Fernanda novamente, depois de alguns anos. Mas agora uma visão
apocalíptica, parada em um ponto de ônibus da rua Augusta,
às seis horas de uma tarde muito quente de inverno.
Naqueles dias a cena final da praia não estava sequer prometida.
O vulto de azul que caminhava ao lado dos dormentes da via férrea
não passava de um pressentimento, e só o que havia era um
projeto do primeiro livro, sempre adiado pela necessidade de produzir imagens
estáticas.
Calças justas cor da pele, grudada no corpo, tão grudada
que era como se fosse o próprio corpo. O rasgo do seu órgão
genital se pronunciava por entre as coxas, marcando a calça. Aquele
tesão todo não sugeria de forma alguma o seu discurso sobre
Artaud, quase doze anos mais tarde, em Paris.
Os peitos, discretamente escondidos por baixo de uma blusa de seda pura,
cor de palha, quase no mesmo tom da calça, balançavam cada
vez que ela se virava ou suspirava. As pessoas no ponto do ônibus,
a maioria homens, andavam de um lado para o outro procurando disfarçar,
mas tentando adivinhar o monumento de tesão que estava debaixo daquelas
roupas, por todos os ângulos.
Uma outra garota, não menos gostosa, não tirava os olhos
das dobras genitais de Fernanda. Olhos de vidro, todos parados na tarde,
cheios de tesão. Agitação na Rua Augusta. Normalmente
as pessoas fazem fila no ponto do ônibus, não ficam andando
de um lado para o outro. Pelo menos em Londres.
Quando eu digo que a visão daquela tarde era apocalíptica
não se trata de uma simples questão de retórica, mas
de uma afirmativa realista. Existia uma real e concreta possibilidade de
que se Fernanda permanecesse parada naquele ponto de ônibus durante
muito tempo, todo o resto da cidade poderia também parar provocando
um congestionamento gigantesco.
Às seis horas da tarde daquela quarta-feira o trânsito
já estava bem pior do que o de sábado à noite: simplesmente
não andava. E Fernanda não tinha nada a ver com aquela imagem.
Nem a de antes, pela qual Thomas foi loucamente apaixonado, nem a daqueles
dias, e muito menos a que viria mais tarde, a que ressurgiria naquele quarto
de máscaras e mistérios, com aquele espelho-porta através
do qual Thomas passaria como quem atravessa uma cortina de vapor.
Fernanda girou o corpo, ajeitou os cabelos, e os seus peitos balançaram
por baixo da seda. Os que passavam pelo ponto do ônibus paravam o
carro, os que estavam mais longe não sabiam do que se tratava e
buzinavam. Começava a se formar uma verdadeira procissão
de carros e pedestres.
Escondido dentro de uma loja de jeans Thomas contemplava o espetáculo
meio assustado, um pouco agoniado, com medo do imprevisto. Pensou em chegar
até ela e conversar, mas logo mudou de idéia. Poderia virar
notícia também. As centenas de espectadores poderiam concluir
que era cantada, e ele poderia ser vítima de uma vaia pública.
E se levasse a coisa para o lado trágico, até acabar linchado
e morto.
Quando as antenas do velho ônibus elétrico da linha Pinheiros
surgiram na Paulista, ele suspirou aliviado. No instante em que o ônibus
encostou, chegou bem atrás dela e disse um "olá",
mas já quando estavam subindo e portanto livres daquela gente toda.
Passaram pela roleta e sentaram.
"O que aconteceu, Fernanda ?" perguntou quando já estávam
sentados. "O que significa tudo isso ?"
"Três homens laçaram ontem o cãozinho que latia
nas manhãs alegres da minha infância."
"Deixe de metáforas, está bem ? Desde quando você
decidiu despertar o tesão do ocidente ?"
"Ah, qual é, Thomas ? Você me conhece, sabe que não
é nada disso. É que engordei um pouco, e a calça ficou
apertada."
"Engordou ? Porra, dá até para conferir o tamanho
do teu clitóris."
"Está bem, digamos que de repente decidi levantar o pau
do mundo. É isso aí. Estou carente, preciso me sentir desejada,
amada, acho que é isso."
"Então está conseguindo, porque até eu fiquei
de pau duro no ponto do ônibus."
"Até você por quê ? Só porque deixou
de me amar, deixou também de me desejar ?"
"Não, lógico que não. Por que é que
você sumiu das minhas aulas ?"
"Fotografia de estúdio me enjoa, você sabe disso."
"Eu estava esperando você voltar à escola para trabalharmos
naquele ensaio."
"O que você acha de sábado pela manhã ?
"Onde ?"
"Na minha casa."
"Estarei lá. Separa alguns slides velhos para queimarmos."