Enquanto espero por Roberta no Great Balls me ocorre a frase de um livro cujo nome não me vem à lembrança:
"Sofre-se muito para matar um gato, soubesse-o antes e não teria começado. Os olhos foram os primeiros a ficar em chamas".
Só que em meu caso está tudo em chamas: o corpo, a alma, o tempo, não apenas os olhos. As imagens passam com violência pela minha cabeça, como as imagens que vemos através da janela de um trem em alta velocidade. Lá fora a floresta está toda em chamas, e o calor aqui dentro é insuportável.
Roberta chega, senta e entra direto no livro. Agora já havia lido a história toda, com exceção da cena da praia, cujo arquivo misteriosamente desapareceu.
”Eu não gostei do encaminhamento de tudo para a cena final da praia. Por mais que você tenha a revelar nela, esse tipo de catarse não funciona, principalmente na rede.”
“Calma, Roberta. Eu preciso explicar algumas coisas a você.”
“E acho que faltou, como sempre, aquela suprema elegância de estar perto da derrota, como se nada estivesse por acontecer. Não pude deixar de ser invadida por uma sensação de fim, quando a cena da praia deveria ser apenas o começo. Parece que você quer colocar nessa cena toda a angústia das últimas horas, quando para quem está lendo um livro existe todo um espaço pela frente ...
“Mas você nem leu a cena da praia !”
“... além disso estou achando muito estranho certas construções e violações da nossa linguagem. Temos que discutir algumas estruturas gramaticais, alguns tempos de verbo usados, misturados ...
“Não há o que revisar, Roberta, não se revisa a vida. Os erros fazem parte do jogo. Da rede. Não estou nem um pouco interessado nas suas estruturas formais e acho que você não entendeu mesmo nada. O problema da sua não compreensão é que estou escrevendo um livro na rede, em branco e preto, com algumas imagens solarizadas, e você, apesar da sua proposta de obra negra, plurívoca, de fim de século, ainda está habituada com livros a cores, unívocos, atrelados a escolas antigas, com idéias bem definidas, por isso não consegue entender.”
“Fuck you, Thomas ! Não me enrole.”
“Em minha história tudo é preto e branco, às vezes em alto contraste, sem tons intermediários, como a personagem da Marcela. Não há nela nenhuma tinta, nenhum filtro, nenhum efeito especial, por isso choca, é burro, não agrada. Mas são pessoas deste fim de século. Por outro lado às vezes a história também se solariza, os personagens adquirem contornos fortes, sem muita definição em seu interior, como na passagem em que Thomas atravessa a porta do apartamento de Fernanda, em Paris, e se vê em na cidade em que nasceu à procura dos fragmentos perdidos da infância.”
“Você foi contratado para escrever uma obra de ficção, não para editar um livro de fotografia. Explicações dessa ordem são para mim totalmente dispensáveis, só interessam a você. Mas no meio disso tudo que você falou me ocorreu pelo menos uma idéia aproveitável.”
“E qual é ?”
“O título do livro”.
“E o que você acha que serve para título do livro ?”
"Em branco e preto, com algumas imagens solarizadas".
“Soa bem, me agrada, mas é muito estranho para o seu padrão literário.”
“Por que é que você escolheu um fotógrafo envolvido com multimídia como personagem ? Você está sendo pago para escrever um livro, não a sua autobiografia.”
“Não tem nada a ver. Poderia ter escolhido um pintor, um cineasta, qualquer profissão ligada à arte. Só escolhi um fotógrafo porque acho que a fotografia é um hobby e uma profissão que já acabou, não vai virar o milênio, e eu sou uma pessoa muito nostálgica. Quero deixar registrada as emoções do homem que vive essa arte que agoniza neste fim de século.”
“Voltando ao livro e olhando de fora, abstraindo os personagens que conheço, diria que não passa de uma história burguesa e convencional de ciúmes e traições, onde nem todos se amam mas todos traem. Só que os seus personagens são pretensiosos, porque em todos eles há um pouco do próprio autor.”
“Chega, Roberta, você não entendeu mesmo nada, não vamos conseguir chegar a lugar algum.”
“Ao invés de ser grosso, por que você não tenta se explicar melhor, sem alegorias fotográficas ? Por que você não me fala da cena final da praia ? Quem sabe me ajuda a entender melhor você e tudo que escreveu.”
“Porque nesta hora o sonho já é matéria decomposta nas oficinas da noite. Não há fim algum no que você leu, o espaço é o mesmo verde-azul-sem fim que eu vivi no poema Joana-Loucura. A retirada do cenário não significa o fim de nada, mas apenas o despojamento do começo, da origem das coisas, dos elementos.”
“Que cenário ? Que elementos ?”
“A decomposição, o fim, só começa realmente quando as extremidades começam a suar e não conseguimos mais enxergar a nossa a própria imagem nas fotos espalhadas pelas gavetas dos sonhos. Houve um dia em que o contato das carnes cansadas foi apenas o começo, não o fim, e essa é a essência. Não saberei quando estarei olhando através de uma máquina fotográfica pela última vez, mas sei que a última foto exigirá silêncio absoluto. No último enquadramento fotógrafo e modelo se comunicarão apenas por gestos, porque quando se parte realmente, quando se deixa o corpo, o espectro dos sons invade o da luz, as energias se anulam e a matéria se desfaz.
“Você já está tão doido quanto o final do seu livro, você está se confundindo com os personagens. E esses personagens todos não passam de máscaras, atrás das quais você se esconde.”
“Eu não estou me confundindo com personagem algum, eu não estou me escondendo: eu sou os personagens, eu sou todos eles, eu sou você, Alex, Joana, Fernanda, Marcela, todos. Eu estou revelando vocês, a vocês mesmos.”
“E você acha que isso possa interessar ao mundo literário ? Que eu vou patrocinar essa viagem ao redor de seu próprio umbigo ?”
“O que importa não é o que você diz, não é a história que você conta, mas como diz, como conta. A rede tem que encontrar o seu caminho literário. Nós estamos saindo do papel. É a forma e a época que vai agir sobre o leitor, transformando-o num sujeito passivo, objeto, ou num ser humano vivo, interagindo com a história de seu tempo.”
“Sim, mas nada do que você fala tem a ver com o que eu li. Desde o início achei que você jamais conseguiria escrever como fotografa. Se você quer ainda intervir na cultura do nosso tempo, como apregoa, sugiro que largue tudo isso e volte a fotografar, selvagemente, como antes.”
“E se eu disser a você que tudo isto não passa de uma grande brincadeira, de uma fábula destes novo tempos da rede, de uma viagem dentro deste tempo maluco que parece não terminar nunca, e escrita com muita nostalgia, poesia, e principalmente com muito tesão.”
“Eu poderia até concordar com você, desde que me explique a cena final da praia e que ela dê sentido a tudo que foi escrito até agora.”
“Sabe, Roberta, estou pensando em torrar toda a sua grana em anúncios nos sites mais caros do planeta. Imagine uma chamada assim:
"Oferece-se ingressos para a grande cena da praia. Você não terá que pagar nada, a não ser participar com o seu sangue e as suas lágrimas. A consumação é gratuita. A náusea e o tédio serão servidos em taças de champanhe."
Ou então:
Você está convidado para sentir a vertigem de viver, está convidado para entrar nesta história e participar da cena da praia. A entrada é permitida por qualquer página, de qualquer ponto do planeta, em qualquer linguagem, e todos terão o direito de se transformar em letras, metáforas, bits, sangrando as páginas".
“Você continua misturando tudo, dizendo bobagens e não falando efetivamente nada.”
“Eu não sei se você percebeu, Roberta, mas eu não estou falando de dois ou três anos, estou falando de mais de três décadas, estou falando de todo o meu tempo, de todo o tempo que tive para viver até agora. Não parece, mas esta porra toda abrange mais de três décadas, e tudo aflorando desorganizadamente, sem critério, sem prioridade, sem piedade - sem que eu consiga sequer descobrir o começo disto tudo e no final desembocando nesta rede inesperada.”
“Você continua confuso, ansioso, confundindo tudo. Está misturando sonho e realidade, passado e presente, sanidade e alucinação, e tudo isso a partir da confissão desesperada de um amor imaginário que não existe e de um final que não consegue explicar. E não entendi também por que esses flashs do Artaud, discursos, isso não leva a nada. O que tem o Artaud a ver com tudo isto ?
“Tem a ver com tudo, desde o "Made in Japan", da invasão do ocidente pelos produtos japoneses até a derrubada do muro de Berlin”.
“Eu não vou publicar esse livro”.
“Pela nossa única e maravilhosa trepada, Roberta, não me abandone”.
“Escroto”.
“Se você olhar para dentro de uma indústria japonesa, vai ver o Teatro da Crueldade do Artaud...
“Não vou bancar esse livro porque você está louco.”
“... só que em proporções industriais, mas a idéia de participação integral é a mesma. Se você analisar o que fazem os executivos japoneses em suas indústrias, vai descobrir que eles não fizeram nada mais do que implantar a teoria do Teatro da Crueldade. Artaud não conseguiu implantar a sua idéia no teatro, mas os japoneses conseguiram implementá-la em suas indústrias com muito sucesso, e principalmente com muito lucro. Acho que isso basta para eu citar Artaud em meu livro.”
“Não há condições de continuarmos a conversar.”
“É só uma questão de grau. Só se pode conduzir um projeto de vida - artístico, comercial, industrial -, seja lá que tipo de projeto for, de duas formas: ou com racionalidade ou com paixão. A racionalidade representa a segurança, mas não leva longe, ou melhor, não leva a lugar algum. A paixão, por outro lado, é perigosa, representa a insegurança, mas leva a qualquer lugar onde se queira ir, arrebenta as barreiras. E ambos escolheram a paixão, cada um de sua forma. Artaud mais do que a paixão, escolheu o delírio. Os japoneses escolheram a paixão, com um pouco de racionalidade. Artaud usava heroína, os japoneses tomam saquê. Não são tão grandes as diferenças.”
“Espera um pouco, Thomas, você roda, roda e não explica nada sobre a cena da praia. Está me ocorrendo que não existe final algum, a cena da praia não existe. Você já falou de tudo, me mostrou tudo, menos o final. Você só escreveu essa loucura toda em função de um final que não existe, por isso não sabe agora como terminar. Isso é felliniano, é uma roubada de idéia do Oito e Meio.”
“Está bem, Roberta, é isso aí mesmo. Não existe cena da praia alguma, é tudo uma farsa. Tudo foi escrito para a grande cena final da praia que estava em minha cabeça, só que não consigo colocá-la no papel, portanto ela não existe. Se este livro fosse uma produção cinematográfica em processo adiantado de filmagens você estaria falida, e eu, fodido.”