Thomas passou dias e dias solitário e perdido naquela praia até que muito tempo depois foi resgatado e levado de volta. É difícil precisar quanto tempo ele ficou em estado de delírio em Nigger Bay.
Era uma noite de verão quando Thomas recobrou a consciência,
em sua própria casa.
Uma luz muito forte iluminava internamente o seu corpo, com as radiações
fluindo do plexo solar para as extremidades. O quarto estava muito quente.
Ele via o sangue correndo em suas veias, os órgãos funcionando,
sentia-se quase transparente. As imagens prometidas começaram a
aparecer: terminais de computadores, ventiladores funcionando, mapas, calculadoras
sobre as mesas, calendários de alguns anos à frente, mas
agora imagens de um tempo presente, não de uma história futura.
"Você sabe há quanto está dormindo ?"
"Não faço idéia, mãe. Há quanto
tempo você está aqui ?"
"Devo ter chegado logo após você ter dormido. Faz
muito tempo."
"Porque não me acordou ?"
"Não sabia se era o que você queria. Decidi respeitar
a sua tentativa de fuga."
"Dor no peito que eu sinto."
"Ainda existem confetes do último carnaval espalhados por
toda a casa, por todos os quartos por onde você e Joana fizeram amor.
É preciso abrir as janelas."
Thomas acordou para aquelas manhãs da última década
do século sangrando ainda, amargando a ressaca de um livro recém
terminado e não entregue. Ouviu as últimas palavras de sua
mãe e disse a si mesmo que se voltasse a escrever tudo seria diferente.
Dessa vez não haveria rock, nostalgia e nem conflitos intelectuais.
"A vida é como uma grande festa, Thomas. Quando você
nasce recebe um convite que não pode ser recusado, não pode
ser devolvido, senão depois que se morre. É uma festa para
a qual você é convocado, não convidado."
"Às vezes tenho vontade de rasgar os bilhetes e me retirar
dessa festa."
"Nos momentos de crise você pode usar máscaras para
não ser conhecido, pode até se esconder pelos quartos, cozinha,
banheiros, sair para os jardins, mas a fuga não é permitida.
Os muros da casa onde acontece essa festa são muito altos, e não
permitem a fuga."
Naqueles dias as pessoas já não estavam mais lendo, apenas
assistindo televisão. Os sequestros, drogas, estupros, assaltos,
tudo aquilo comprimia as massas diante da pequena tela eletrônica.
Existia ainda alguma coisa no ar, uma expectativa de revolução,
mas a maioria dos rebeldes haviam sido absorvidos pelo sistema, e os seus
filhos yuppies desfilavam felizes em carros do ano. Alguns ainda resistiam,
mas tinham contra eles os filhos, numa espécie de conflito de geração
às avessas . Os rebeldes agora eram os pais, e os filhos lutavam
para manter o status quo.
Era mais ou menos esse o quadro, procurando ver com os olhos da época.
Na verdade o processo de descontinuação da sociedade já
havia sido deflagrado, o processo de transformação estava
em andamento, mas não era possível enxergar. O epicentro
da revolução ainda estava alguns anos adiante.
"Quem está sentada aí fora, mãe ?"
"É uma pessoa que esperou por muito tempo, e quer muito
ver você."
"Peça para ela entrar, mãe, mas fica comigo."
"Preciso ir filho, vou fazer ela entrar."
O ventilador sobre a cama de Thomas estava desligado, mas o forte vento
que entrava pela janela fazia as pás girarem lentamente, como a
vida ressurgindo lentamente após um intervalo no tempo. Thomas definitivamente
acordou. O abajur ligado projetava na parede da cabeceira de sua cama as
sombras das pás em movimento.
"Como vai, Thomas ?"
"Sem a sua presença talvez fosse pior, Joana."
"Eu sei. Por isso vim."
"Os seus olhos estão ardendo de desejo."
"Como é que você sabe ?"
"Pelos seus lábios, pelo seu sexo, que lateja em minha mão."
"Você não devia enfiar a mão por dentro das
minhas calcinhas."
"Elas estão molhadas."
"É porque gozei enquanto te esperava."
"Da última vez você não ficou assim, molhada."
"É que naquelas noites os nossos corpos ainda estavam cobertos
por muitas roupas, e a nossa matéria era feita de sonho."
"Você lembra porque nós não as tiramos ?"
"Porque naquele tempo as nossas mãos e bocas ainda não
estavam prontas para o contato com as nossas carnes."
"Quanto tempo falta ainda, Joana ?"
Aos poucos Joana foi tentando trazer Thomas de volta. Disse a ele que
as pessoas já começavam a viver em função de
uma expectativa de fim de século, e que muitas coisas haviam mudado.
Thomas começou a retornar ao presente, e lembrou do livro que concluiu.
"Eu já deveria ter entregue o livro na editora. Eles me
pagaram, me anteciparam uma parte pela sinopse."
"Acho melhor não, Thomas. Há uma discussão
muito grande sobre o obsoletismo do intelectual nos dias de hoje. Acho
melhor você tomar consciência de tudo antes de decidir. Talvez
seja preferível até devolver o dinheiro que recebeu adiantado.
A maior parte dos livros já estão saindo em formato eletrônico,
e grande parte dos antigos já tem a sua versão estendida,
com imagem e som, para serem lidos em computadores domésticos."
"Mas livros narrados já existem há décadas
! É o cinema !"
"É que esses living books são interativos e permitem
que o leitor interaja com a história."
"As pessoas também interagem com a vida hà milênios
! Que diferença há em interagir com uma história dentro
de um livro. O que é que isso acrescenta à vida inteligente
no planeta ?"
Não houve resposta de Joana. Após algum tempo de silêncio,
ela continuou:
"Já existem grandes editores eletrônicos no mercado,
e a própria Roberta é uma das maiores. Dizem que muito em
breve os livros impressos serão consumidos apenas por sobreviventes
solitários, que não conseguirão se adaptar."
"Mas eu preciso aproveitar esse resto de nostalgia que ainda paira
sobre as cabeças das pessoas. Essa nostalgia ainda pode ser trabalhada
antes do final da década. É preciso que elas sejam novamente
preparadas para a revolta, como os jovens do final da década de
50 foram preparados para a revolução da década de
60. Nas décadas de 70 e 80 o mundo parou. É preciso reinventar
a rebeldia e a revolta com os elementos do presente, sem idéias,
sem ideologias, apenas com as pessoas. É preciso não trapacear,
desta vez, mas conspirar."
"Esquece Thomas, tudo isso já passou."