Plano Insight Com os Bolsos Vazios



Mais preso à terra do que às nuvens que passam, caminho agora perdido no meio de uma multidão composta de rostos que não conheço. As pessoas que passam não me conhecem mas me cobram, me indagam os gestos, os olhares. O que tenho eu para mostrar a eles?

Nada. Apenas caminho por uma rua com os bolsos vazios, as mãos sem respostas e nos olhos o espanto de não entender.

Mesmo assim não parto para longe, permaneço, porque preciso muito da luz dos teus olhos, Joana, para poder caminhar entre essas pessoas.

Quando o sol começou a se por este fim de tarde vi surgir em teus olhos o medo de não encontrar o caminho quando chegasse a noite, de abrir portas erradas e encontrar os nossos nomes escritos em paredes empoeiradas e mais tarde ter os nossos sonhos perdidos em rotinas desgastadas.

Joana Blue

Começaram a rolar lágrimas pelo teu rosto e eu senti uma vontade louca de fugir, gritar, correr por aquele princípio de noite até cair por trás do horizonte que nos havia preparado aquele encontro.

Se em meus olhos você não encontrou toda a ternura que esperava para se refazer de toda a tristeza porque passou é por que os tenho embrutecidos pelas mil mortes que ainda me faziam chorar.

Se dos meus lábios você não ouviu as palavras que fariam renascer as bonecas da tua infância, é porque os lobos da cidade mastigado o verde dos meus sons e eu tinha o corpo cansado de tanta distância percorrida.

Por duas tardes eu vi as tuas quedas se alongarem até o cair da noite e desmancharem -se em estrelas tristes. Apesar de todas as minhas limitações construi delas uma nova madrugada, apelei para um outro nascer ne sol, e tenho agora como recompensa o mel dos teus lábios, a pureza do teu sorriso e a certeza da terceira queda.

Meus cantos oscilavam antes entre a antecipação da tua presença e o adiantamento da minha morte. Isso porque ao longo do teu corpo eu enxergava o caminho, a ponte para passar, mas naqueles dias eu não tinha sequer um gesto teu, um sorriso, um olhar.

Porque aprendi um dia que a subida às vezes leva ao fundo, trago em meus olhos a preocupação das alturas e a incerteza dos grandes vôos, e com essa incerteza o medo de ver os nossos corpos caindo, descendo o frio de uma madrugada sem fim, sem nunca encintrar a lã que nos agasalhará.

Para onde terá fugido a minha alma nesta manhã cheia de sol e ausência? Certamente para a solidão dos campos sem fim, em busca da tua, em algum bosque onde as flores estejam crescendo...

... e se elas se encontraram, Joana, devem estar amando sobre a superfície do verde batida pelo vento, com os olhos voltados para o azul, justamente como faríamos se não existisse toda a confusão que nos rodeia.

“Não, Joana, não diga isso. Nós não vamos nunca nos deixar.”

Quando naquela noite as nossas mãos foram asas e tocaram mais fundo as nossas carnes, eu soube já o encontro dos nossos corpos, mas a união às vezes é efêmera, por isso eu contive o grito e o gesto.

A linguagem do corpo por vezes nos funde, nos faz um só, e na cama pela qual rolaríamos eu sabia a chegada, mas embaixo dela a terra, e nesta eu sabia também o fim do caminho.

Por isso tive medo.

Somos dois, Joana, cada um com uma paisagem diante dos olhos, cada um com destino nas mãos. Você a dizer o teu destino em mim, eu a dizer o meu destino em você, e a impossibilidade de conviver nos esmagando, nos enfurecendo.

Somos dois nesta noite, Joana, e os nossos corpos nos convocam, mas é melhor esperar. Quatro seriam as paredes e quatro as mãos, mas é melhor esperar porque lá fora, amanhã, as pessoas nos condenarão, sem nunca entender o que existiu entre nós.

Somos dois corpos quase fundidos na noite, dois corpos sem destino, viajando livres, mas de que adianta se logo depois eles virão nos atirar na cara as suas imagens sem rostos, se logo depois eles virão fazer as suas angústias ressurgirem sobre nós e tentar separar, com as suas mãos sujas, o que nos levamos toda uma noite para juntar.

Os nossos carinhos ontem se enfureceram um pouco, as nossas mãos se procuram mais no fundo, e mais loucos do que as outras vezes os nossos corpos se apertaram, mas tivemos medo de ver tivemos medo de ver os nossos corpos grudados e as pessoas nos puxando, tentando arrancar dos nossos lábios o grito que nunca chegaríamos a dar.