Plano Ensaio Despedida


Quase dois anos após aquela malograda noite da despedida do Robert, Fernanda e Thomas se encontraram novamente, só que desta vez não se deixaram abater por momentos desprovidos de inspiração, e conseguiram superar o fracasso do último encontro. O que cresceu entre eles nos dias que se seguiram foi muito bonito, uma afinidade muito grande, como da primeira vez.

Quase todas as noites ele ia esperá-la na saída da redação, ao redor das onze horas, e saíam pela noite. Enquanto a esperava, Thomas já começava a beber antes, em um botequim bem vagabundo, quase em frente ao prédio onde ela trabalhava.

Eles viviam a segunda metade da década de 80 e consumiam seus dias e noites tentando assimilar tudo o que aquela década inútil havia acrescentado em suas vidas. Discutiam cultura, música, rebeldia, processo social, e acabaram concluíndo que haviam consumido todo o tempo disponível aprendendo sobre tudo - só tínham esquecido de aprender sobre eles mesmos, sobre a própria vida, sobre a própria individualidade, sobre a necessidade de amor. Mas não havia motivo para pânico, concluiram. Mil vezes as pessoas já haviam se fodido na história da humanidade, e mil vezes já haviam sobrevivido. Nem tudo estava perdido.

Concordavam em vários pontos quanto às conclusões sobre o passado, mas também discordavam em outros tantos quanto às posturas para o futuro. Fernanda era agora uma intelectual da esquerda militante, por isso, apesar da lucidez sobre a derrota, estava afim de se engajar cada vez mais, de ir cada vez mais fundo no processo revolucionário, ainda que para isso fosse necessário levar todas as porradas novamente, e novamente ressurgir de todas as derrotas. Era uma mulher atormentada e cheia de contradições, paradoxal e maravilhosa.

Thomas, naqueles dias, havia deixado por um tempo a fotografia e se tornado uma espécie de intelectual executivo, de paletó e gravata. Nunca havia partido para uma batalha no corpo-a-corpo, a não ser na cama, e aí residia a grande diferença entre os dois. Ela estava certa de que alguma coisa precisava ainda ser feita, de qualquer forma era preciso um gesto, um agitar de mãos, ainda que fosse para pegar novamente em metralhadoras e praticar sequestros ou assaltar bancos.

Quanto a ele, achava que deviam continuar de tocaia, à espera do instante para dar o grande golpe. E caso esse dia não chegasse, ele também não morreria frustrado por isso. Há sempre um momento nas vidas das pessoas em que elas desistem de mudar o mundo, e aquele era o de Thomas - as ideologias que se fodessem. Ele já havia concluído que o importante é o indivíduo, o ser humano, e que não podia perder a perspectiva do sentido da vida. E teorizava muito sobre isso, se fosse preciso.

Uma noite entrou um casal de crianças vendendo flores em um boteco do Largo do Arouche, onde eles estavam. Thomas deu o dinheiro às crianças e entregou uma rosa vermelha à Fernanda, mas para sua surpresa ela explodiu de uma forma totalmente neurótica. Queria a todo custo sacudir as crianças, dar uma porrada na cara delas para saber se reagiriam.

"Para continuar a viver pedindo, é melhor que se fodam logo", dizia. Com ela não havia separação entre teoria e prática.

Em uma outra noite entrou o Sargento Jacaré, uma das testemunhas daqueles tempos, com a sua surrada farda azul e os seus imensos bigodes brancos, tentando resgatar os bêbados com as suas mensagens bíblicas. Deixou-as sobre a mesa, e quando voltou para recolher os donativos ela começou a ficar nervosa, como com as crianças.

Naquela noite, como em muitas outras, Thomas deixou-a num casarão na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, onde um grupo muito grande se reunia, duas vezes por semana, para tentar reabilitar a esquerda no ambiente universitário. Ele nunca manifestou o menor desejo de participar daquelas reuniões, e ela também nunca tentou convencê-lo a ir. Cada um respeitava bastante a posição do outro, apesar de antagônicas, e talvez por isso tenha crescido novamente uma afinidade tão grande entre eles naqueles dias.

Alguns meses após aquela convivência puramente intelectual, sem transas corporais, quando ele já havia esquecido completamente a primeira grande paixão, a Fernanda apocalíptica do ponto do ônibus veio com um convite irrecusável.

"Quer dormir em casa esta noite ?"

"Durmo, respondeu de susto. Mas e a amiga com quem você divide o apartamento ?

"Eu dou um jeito."

Thomas continuou a beber como se nada houvesse se alterado no vai-e-vem daquelas noites, mas ficou intrigado com o convite. Parecia uma reprise da noite da despedida do Robert, só que ao contrário - agora era ela quem fazia o convite. Lembrou-se da fatídica noite e se sentiu como um adolescente na iminência de dar a primeira trepada. Sentiu também Fernanda um pouco estranha, pois havia deixado o uísque e alternava entre cerveja e steinhagger. Quanto a ele continuou no uísque, mas antes que a bebida pudesse colocá-lo à vontade diante daquela situação nova, lá estávam os dois, meio chumbados, na porta do prédio.

O apartamento era um imenso sala-dormitório, tão grande que certamente se tratava de um dois ou três quartos, onde haviam sido derrubadas as paredes. Os móveis, carpetes, cortinas, paredes, tudo era imensamente branco. Até mesmo o equipamento de som e as caixas acústicas haviam sido pintados de branco.

Fernanda colocou um disco do Dire Straits e encheu dois copos de vodca com gelo. As coisas realmente haviam se invertido com relação à noite em seu apartamento, ela havia passado de caça a caçadora. Não fez muito charme, e em pouco tempo estavam rolando nus pelo imenso e felpudo carpete branco, que parecia um lençol de nuvens, sem fim.

Depois de muitas idas e vindas, partidas e chegadas, orgasmos ruidosos e corpos suados rolando durante quase toda a madrugada, o dia começou a clarear. Os dois ainda estavam deitados no chão, nus, ouvindo o mesmo disco, quando Fernanda disse que precisava estar no Guarujá às oito horas da manhã e estava sem carro.

Tomaram um banho e sairam com os corpos quebrados e cansados pelas ruas vazias de São Paulo. Ela pediu para descer pelo velho Caminho do Mar, que na época estava aberto para passeios turísticos. Na descida da Serra, em frente à casa da Marquesa, pediu para parar, queria ver o sol nascer. Eram quase seis horas, e o sol começava a surgir por trás das montanhas. Santos estava ainda coberta por uma névoa fina.

"Foi bom, Thomas, enquanto durou, mas acho melhor agora nos darmos um tempo. A nossa afinidade tem sido tão grande, que às vezes nos repele. Na verdade somos dose muito forte um para o outro. Acho que jamais conseguiremos viver mais do que seis meses juntos, sem nos saturar. Eu gostaria mesmo é de voltar a ver você daqui a algum tempo, muito longe deste lugar, para vivermos novamente seis meses juntos. E depois sumir novamente, para novamente nos encontrarmos em outro lugar, bem longe dos primeiros. Paris, Londres, Nova York, quem sabe ?"

Só então Thomas percebeu que o estranho convite para dormir em sua casa se tratava de uma despedida, e que desta vez não voltaria a vê-la tão cedo."