Thomas e Fernanda se conheceram naquela festa inesquecível no
casarão da Serra da Cantareira e se apaixonaram. O louco amor adolescente
durou quase seis anos, mas como todo primeiro e grande amor um dia se desfez,
com muita tristeza.
Depois de alguns anos trilhando estradas diferentes, se encontraram
novamente, mas agora com as feridas cicatrizadas: ele professor de fotografia,
ela aluna. Durante as aulas conceberam um ensaio louquíssimo, mas
logo depois ela sumiu de novo.
Seis meses depois, a apocalíptica cena da rua Augusta, um novo
reencontro e a promessa do ensaio. O tempo era ainda da fotografia analógica,
filmes de 36 exposições, processo E-6.
Sábado pela manhã, às dez horas em ponto, ele está
na porta de seu apartamento. Ela abre a porta ainda de pijama, bocejando.
"Você chegou cedo."
"Não fui eu quem chegou cedo, você é que está
acordando tarde."
"Está bem, entre, vou dar um jeito na minha cara. Ontem
separei uns slides para queimarmos. Está tudo aí em cima
da mesa. Tem imagens de crianças, casas, igrejas, praias, vamos
queimar tudo, vamos botar fogo no planeta."
Aquelas fotos haviam sido planejadas quando ela começou a tomar
aulas de estúdio com Thomas. Uma noite sairam para tomar um chope
após a aula, começaram a discutir sobre fotografia, e surgiu
a idéia de um estúdio em movimento, aleatório, não
convencional.
Fernanda não gostava da fotografia convencional de estúdio.
Era complicada e limitava a criatividade. No fundo aquela idéia
lhe havia sido transmitida pelo próprio Thomas, que também
nunca gostou de iluminação artificial. Conhecia razoavelmente
bem os segredos daquele tipo de fotografia, dominava a técnica,
mas não gostava, e acabava sendo um péssimo professor, transmitindo
aquela sensação aos alunos.
Depois de alguns chopes e muitos vôos, decidiram revolucionar
o velho estúdio, trocando a iluminação e colocando-a
em movimento, aleatoriamente. Pensaram em um ensaio sobre a solidão
da mulher moderna, algo que ficasse entre a esquizofrenia das grandes cidades
e o amor neurótico e solitário vivido entre quatro paredes.
Thomas estava ainda separando os cromos para queimar quando Fernanda
ressurgiu. Agora bela, rosto lavado, suavemente maquiado, enfiada num jeans
azul claro.
"Você já selecionou os slides ?"
"Já. Selecionei cerca de trezentos, mas trouxe também
mais alguns de casa que preparei ontem à noite."
"Estou curiosa para ver como é que fica esse negócio
de queimar os slides e o efeito que dá. Foi você quem inventou
isso ?"
"Não, eu vi alguns trabalhos desse tipo em revistas estrangeiras
antigas, impressos a partir de cromos 4 x 5, cuidadosamente queimados,
com chama de fósforo ou isqueiro. Dependendo da imagem e da sorte
que se tem ao queimar, consegue-se efeitos interessantes. Eu me lembro
de alguns retratos de mulheres que ficaram incríveis, com um efeito
bastante surrealista."
"Mas os nossos cromos são de 35 milímetros."
"Eu sei, mas o que nós vamos fazer também não
tem muito a ver com o que eu vi, a não ser pelo fogo. O resto é
criação nossa. Apanha uma caixa de fósforos, que nós
vamos pôr fogo nesse apartamento."
Ficaram quase uma hora queimando cuidadosamente os slides, e perderam
mais cromos do que esperavam, porque às vezes se descuidavam e a
chama destruía até a moldura. Para conseguir os duzentos
e quarenta que queriam foram obrigados a queimar mais de quinhentos. Fernanda
se encantou com os resultados, independente do que fossem fazer com eles.
"É fascinante o resultado, é como se cada emulsão
reagisse de forma diversa ao fogo, formando uma textura diferente e intrigante".
"É impossível obtermos resultados iguais, por mais
que tentemos," explicou."Tudo depende da intensidade do fogo,
da distância da chama, da quantidade de luz que atinge as três
camadas coloridas da película, enfim, são tantas as variáveis
que é impossível controlar. Por isso acho que o que nós
vamos fazer está mais para um happening fotográfico do que
para uma sessão de estúdio. Eu já nem tenho certeza
se o resultado final vai mostrar o que queremos ou se vamos enveredar por
outro caminho. Quem sabe até criamos algo novo, diferente do que
concebemos. Tudo vai depender do clima, da música, das nossas cabeças,
das emoções estéticas de cada um no momento, enfim,
o resultado é praticamente imprevisível."
A iluminação partiria de três projetores, projetando
aleatoriamente slides queimados no corpo nu de Fernanda, que posaria em
um quarto escuro ao som de Stockhausem para que pudessem entrar em um transe
meio neurótico. O alcance ou não da mensagem que queriam
transmitir dependeria mais do resultado do happening fotográfico
em si, do clima, do que de toda a produção que pudessem tramar.
Para suportar as imagens concordaram que seria necessário um pequeno
texto, para complementar a idéia.
"Venha ver como ficou a nossa arena."
O apartamento tinha três quartos imensos, um dos quais servia
de escritório. Com a ajuda do zelador Fernanda havia esvaziado esse
quarto, deixando apenas a aparelhagem de som e dois enormes espelhos, um
em cada parede. Montou também os três projetores de slides,
os quais havia tomado emprestado na escola, em forma de triângulo.
Apontou as objetivas para o centro, onde deixou apenas um banquinho giratório
de piano, em cima do carpete espesso. Usou três bancos altos, desses
utilizados em salas de aula, para colocar os projetores.
Thomas não chegou a perguntar onde conseguira os bancos e os
espelhos. Não gostava desse tipo de pergunta, porque essas respostas
consomem tempo para serem dadas e via de regra são desprovidas de
qualquer interesse. Mas daquela vez devia ter perguntado, se naquele dia
houvesse pelo menos imaginado o mistério e fascínio que os
espelhos iriam exercer em sua história.
"Está ótimo, você foi perfeita na produção.
Se um dia me tornar um fotógrafo de estúdio, vou contratá-la
como produtora. Você tem pique."
"Quando tenho um bom objetivo gosto de fazer as coisas direito,
procuro fazer o melhor que posso. Mas só quando quero mesmo, e isso
não acontece todos os dias."
"O esquema é o seguinte: eu vou colocar oitenta slides em
cada projetor e deixá-los funcionando com o timer, usando o tempo
máximo de troca, que é de dez segundos. Vou acioná-los
com uma defasagem de 3 segundos um do outro, e assim a cada período
curtíssimo de tempo teremos uma diferente combinação
de imagens projetadas em seu corpo. O resto é com você."
"O que é que você achou dos espelhos ?"
"A idéia foi ótima, você vai poder ver o que
está sendo projetado em você. Agora vá se aprontar,
ou melhor, tire a roupa, enquanto acabo de carregar as bandejas."
"Agora é que vem a parte mais difícil. Nunca posei
nua, sei que não vou conseguir relaxar."
"Ora, Fernanda, deixa disso, em cinco minutos você já
terá esquecido que está nua. Tome alguma coisa para relaxar,
se achar melhor. Eu não vou beber nada, porque fotografia e álcool
não combinam, pelo menos para mim. Fico muito lento."
"Vou buscar um conhaque. Hoje esfriou um pouco. Além de
relaxar vai ajudar a me esquentar. Assim não preciso pedir a você
que me esquente."
Uma pena, pensou.
Apanhou um dos três discos do Stockhausem que Fernanda havia separado,
colocou no toca-discos e acabou de carregar as bandejas dos projetores.
Aquele era um de seus discos mais estranhos. Uma vez adormeceu ouvindo
a faixa "Hymns" e quase teve uma parada cardíaca devido
a uma explosão no meio da faixa, após alguns segundos de
silêncio. Desde esse dia concluiu que Stockhausem era extremamente
perigoso para cardíacos desprevenidos.
Quando Thomas abria a maleta para apanhar a máquina Fernanda
voltou. Maquiada, bela, dentro de um roupão de banho vermelho, com
um elegante copo de conhaque em uma das mãos e a garrafa na outra.
Deu um primeiro gole, depositou o copo em cima de um dos bancos, respirou
fundo, e colocou a garrafa no chão.
"O que você trouxe de equipamento ?" perguntou, já
virando um segundo gole.
"Quase nada. Só a máquina, o motor, a objetiva Nocti
por causa da pouca luminosidade dos projetores, e um pacote de Ektachrome
400 ASA. Não é preciso mais do que isso. Vou trabalhar com
a abertura máxima para ter mais folga com a velocidade, e depois
puxar o filme para 1600 ASA na revelação."
Fernanda fechou a janela e puxou a cortina. Ele fechou a porta, ligou
os três projetores e apagou a luz. O ambiente ficou meio surrealista.
Três fachos de luz se cruzando no meio da sala e refletindo nos espelhos
e paredes brancas, com Stockhausem ajudando a reforçar o clima.
Enquanto Thomas ajustava os três projetores para que os três
fachos de luz cobrissem uma área de mais ou menos um metro e meio
a partir do centro do banco giratório, ela deixou cair o roupão
e surgiu nua, bem no meio da parafernália luminosa e barulhenta,
multiplicada pelos espelhos. Deu um longo gole e sentou, pouco à
vontade.
"Esse banco está gelado, vou pegar um resfriado na bunda."
Thomas tirou a malha e jogou para que ela sentasse em cima. Ajustou
o foco em seu corpo, acionou os três projetores, e as imagens começaram
a se suceder no corpo de Fernanda, como se ela fosse uma tridimensional
tela humana.
"O que eu faço agora ?" perguntou olhando para o próprio
corpo refletido nos espelhos.
"Imagine que você seja aquela mulher esquizofrênica
e solitária que queremos mostrar, e faça o que quiser: chore,
grite, ria, faça cara de desespero, de tesão, goze, seja
neurótica."
"Com essa música louca e essas imagens projetadas em meu corpo
e em meus olhos não vai ser muito difícil passar por neurótica.
Me passa o copo, para um último gole antes de eu entrar de cabeça
nesse transe de neurose."
"Não vá ficar bêbada antes de começarmos",
disse carinhosamente, antes de passar-lhe o copo.
"Não se preocupe, quando quero vou fundo, trabalho sério,
e você sabe disso."
Thomas se ajoelhou a mais ou menos um metro e meio dela e começou
a fotografar. No início Fernanda estava um pouco presa, um pouco
espantada ainda com a imagem do seu corpo nu refletido nos dois espelhos,
e ele precisou comandar-lhe os movimentos e expressões, agitar a
sua cabeça e girá-la de um lado para o outro, conforme a
combinação aleatória das imagens que se sucediam.
O efeito da emulsão estourada pelo fogo, cheio de bolhas de diferentes
dimensões, era magnífico quando projetado. A imagem original
não fora totalmente destruída pelo fogo, mas apenas alterada.
E o registro da imagem certa, no lugar certo do corpo, só dependia
deles, do movimento e expressão que ela escolhia com a ajuda do
espelho, e dele estar na posição certa na hora do clic.
As bolhas formadas pelo fogo, às vezes minúsculas, às
vezes enormes, combinadas com as imagens originais, alteravam o clima,
as sensações, os gestos, a cada troca de slide. Concentrada
em sua imagem no espelho Fernanda começava a crescer, e já
passava da histeria à ternura, da raiva ao tesão, com uma
facilidade que Thomas não tinha para trocar o filme da máquina.
"Como estou ?" perguntou enquanto ele colocava outro filme.
"Você está muito melhor posando do que eu fotografando.
Está conseguindo sentir bem a imagem no espelho, está ótima,
mas eu estou um pouco lento nos movimentos. Às vezes, quando chego,
o slide troca e perco a combinação expressão-imagem.
Vamos fazer o seguinte: agora você vai se orientar pelo barulho do
motor da máquina, e não pela troca do slide. Só mude
a pose quando ouvir o barulho do motor, ainda que o slide troque antes."
"Está bem professor, vai ser como você quer, mas me
deixe tomar mais um gole."
As imagens rebentadas pelo fogo se sucediam: crianças, casas,
objetos, cúpulas de igrejas, texturas naturais, cenas de praia, estátuas,
tudo renascendo no corpo agitado de Fernanda, que agora se contorcia ao
ritmo do motor, para facilitar as tomadas. Thomas começou então
a variar a distância entre eles, às vezes procurando enquadrá-la
dentro do ambiente, com o espelho de fundo, às vezes enquadrando
só detalhes, eliminando o fundo. Fernanda já estava muito
à vontade, se movimentando com a precisão de uma bailarina
clássica, mas ao som de Stockhausem.
"Fique de joelhos agora, ele disse retirando a banqueta giratória.
Você vai ter mais liberdade para os movimentos, mas não saia
do lugar para eu não perder o foco, gire em torno de você
mesma."
"Eu estou arrepiada, não sei se de frio ou de tesão,
de ficar aqui pelada, me contorcendo toda para você. Acho que estou
ficando muito exibicionista, essa música está me liberando
os instintos."
Fernanda começou então a se contorcer de joelhos, girando
o corpo de um lado para outro, a cada ruído do motor. Parecia agora
uma gata gozando, tendo um orgasmo a cada clicada. Todo o seu corpo estava
arrepiado: coxas, bunda, braços, estava toda sensível. O
bico dos seus seios estavam duros, como se ela estivesse atravessando sucessivos
e profundos orgasmos.
"Vamos apontar os projetores para o chão", ela disse,
aproveitando nova troca de filme. "Agora quero experimentar deitada."
Fernanda já assumia o comando da sessão. Thomas carregou
a máquina, apontou os três projetores para o chão,
e desta vez foi ele a encher o copo para um longo gole. Já estavam
fotografando há mais de duas horas.
Ela se colocou de bunda para cima no centro da arena e ele ajustou de
novo o foco dos projetores. Esticou o braço, puxou o copo de Thomas
e deu um longo gole. Ele trocou o disco, apesar de não fazer muita
diferença.
Colocou os três projetores no primeiro slide e os acionou novamente,
em outra ordem, para que as combinações de imagens ficassem
diferentes.
Acertado o equipamento, Fernanda iniciou novamente o ritual, cada vez
mais excitante, abrindo os braços, girando, arqueando o corpo com
a bunda para cima, e ele a fotografava agora de cima para baixo, com um
tesão que não estava programado.
Começou a pensar que não resistiria ao contorcionismo
e às expressões de Fernanda, que cada vez se entregava mais,
cada vez mais era só tesão, agravado pela música e pela
troca contínua de luzes, que começavam a deixá-lo
também um pouco tonto.
"Tire a roupa", disse ela, interrompendo o ritual. "Agora
sou eu quem vai fotografar você."
"Espera um pouco, o modelo aqui é você, não
eu, o ensaio é sobre a solidão da mulher moderna, não
sobre o homem moderno, e além do mais eu sou fotógrafo, não
modelo. Você sabe que eu não gosto de ser fotografado nem
vestido, quanto mais pelado."
"Em cinco minutos você já terá esquecido que
está pelado, não foi o que me disse ?"
"Não brinque, Fernanda, tudo isso já me deixou muito
louco, e se eu tirar a roupa não existe a menor chance de continuarmos
a fotografar."
"Não se preocupe que eu me protejo", disse desabotoando
a camisa de Thomas.
"São quase quatro horas da tarde e nós ainda não
comemos nada", argumentou, como se aquilo fizesse algum nexo.
Não adiantou discutir. Em pouco tempo ele estava pelado, no meio
da arena, tentando esconder o pau duro no meio das imagens que agora eram
projetadas nele. De pé, pelada, com a máquina pendurada no
pescoço, Fernanda começou a fotografar, completamente à
vontade, e se divertindo muito com a falta de jeito de Thomas para a profissão.
Fernanda continuava uma bela figura de mulher, constatou Thomas enquanto
era fotografado. Ela estava em pé, com uma perna em cada lado de
seu corpo, na mesma posição em que ele estava há pouco,
quando a fotografava - só que nua.
Vista de baixo para cima Fernanda parecia um monumento de um metro e
setenta, flutuando sobre o corpo de Thomas, e ele não aguentou.
Se apoiou segurando em suas pernas, e levantou o corpo. Beijou as coxas,
e subiu. O ruído do motor da máquina parou. Ela segurou a
cabeça dele e a apertou contra ela. As imagens continuaram a se
suceder, agora sobre os dois corpos enroscados, sem o comando do giro do
motor.
Terminados os slides e o som infernal do Stockhausem, ficaram deitados
por algum tempo no chão, um ao lado do outro, descansando. Só
se ouvia o ruído dos ventiladores dos projetores. Os fachos de luz
ainda estavam em cima dos corpos nus, mas nenhum dos dois se preocupou
em desligar.
Thomas estava um pouco preocupado com o fato de ter transado com Fernanda.
Gostava muito dela, queria muito fazer aquela sessão, tudo aquilo
tinha sido muito importante, mas não gostaria que mudasse em nada
o relacionamento deles, não queria se apaixonar de novo.
"Foi bom, disse ela, cortando o silêncio, foi muito gostoso
que você me amasse."
"Eu também gostei muito."
"Você acha que as fotos sairão boas ?"
"Tenho certeza que sim. Fiz dez filmes, e tenho certeza que deve
ter muita coisa boa. Você foi maravilhosa, e deve ter sentido isso
no espelho, como eu senti por trás da câmera."
"E o final, você acha que valeu ?"
"É lógico que valeu. Com esse clima não poderia
ter terminado de outra forma. Acho que se não terminasse assim teríamos
saído em pedaços, incompletos. Toda grande obra tem que ser
coroada por um grande êxtase, um grande orgasmo. Eu só tenho
um pouco de medo que um dos dois possa sair machucado."
"Outros trabalhos seus costumam terminar assim também ?"
"Não, Fernanda, você sabe disso. Não vamos
começar a nos cobrar."
"Só quando é inevitável, não é
?"
"Vamos comer alguma coisa, que eu estou com fome."
"Não se preocupe com as minhas perguntas", disse virando
o corpo e beijando Thomas carinhosamente. "É só curiosidade
mesmo, não estou cobrando nada."
Apanharam o copo de conhaque e o esvaziaram em dois goles. Beijaram-se
mais uma vez, em pé, e depois começaram a se vestir. Fernanda
colocou a malha de Thomas, que chegava quase aos seus joelhos, sem nada
por baixo.
Desligaram os projetores, abriram as janelas, e a luz invadiu o ambiente,
agressivamente. Já eram quase quatro horas da tarde. Haviam ficado
naquele quarto escuro, em transe, durante quase cinco horas. Foram para
a cozinha, mortos de fome, mas em menos de quinze minutos estavam saboreando
uma lasanha que ela tirou do freezer e esquentou no forninho de microondas.
"Sabe, Fernanda, estou pensando em um texto para esse ensaio e
não me ocorre nada parecido com o que havíamos imaginado.
Estou com as imagens ainda na cabeça, mas as palavras que me chegam
são as de uma história de amor meio furiosa, violenta. As
expressões que eu captei não foram as de uma neurótica,
de uma masturbadora solitária, mas de amor mesmo, de um amor furioso,
entre um homem e uma mulher."
"O que você pretende fazer com essas fotos ? "
"Se ficarem boas, gostaria de publicar em alguma revista de fotografia
com boa circulação, provavelmente no exterior. Podemos redigir
um texto de apoio, meio maluco, que acompanhe o pique das fotos, e submeter
a umas duas ou três revistas. O que é que você acha
?"
"Para mim está bem, mas se tivermos que escrever algum texto
vamos fazer isso agora, que estamos ainda com as emoções
vivas dentro de nós, com as idéias bem claras."
Sentados no chão, começaram a trocar idéias sobre
o texto. Fernanda continuava só com a malha, sem nada por baixo,
e isso incomodava um pouco Thomas, apesar de ser um incômodo agradável.
Quando se debruçaram para começar a escrever a malha subiu
e a bunda ficou descoberta. Ele achou que ela estava gostando de provocá-lo,
e que fazia isso deliberadamente.
"Com essa sua bundinha de fora, para cima, vou ter dificuldades
para pensar."
"Concentre-se no texto e esqueça a minha bunda", disse
deixando tudo como estava.
Depois de alguns vôos chegaram a um texto o qual ela até
achou razoável, mas concordaram que seria difícil passar
para as outras pessoas a imagem que queriam, seria um pouco difícil
a associação. Mas como não conseguiram chegar mais
longe, ficaram com um texto provisório.
"O que você achou do texto, perguntou."
"Está uma merda."
"Eu gostei, retrucou Fernanda. É que você racionaliza
demais, se preocupa muito com a objetividade, fica esperando sempre que
as pessoas entendam. É preciso ser mais irracional, ilógico,
abstrato, deixa o cartesianismo para as pessoas comuns. Se expomos a nossa
dimensão e ela é bela, é justo que as pessoas façam
um esforço para compreendê-la."
Talvez Fernanda tivesse razão, e Thomas hoje concordaria com
as idéias dela, há quase quinze anos atrás, idéias
que já eram parecidas com as de Roberta, guardadas as proporções
e profundidades com que cada uma atingia a essência das coisas.
Mas já era um pouco tarde para começarem aquele tipo de
discussão e Thomas tinha um compromisso. Quando pensou em ir embora
teve vontade de ficar um pouco mais e se enroscar novamente com ela, mas
se sentiu meio canalha e despediu-se antes que mudasse de idéia.
"Quando os filmes estiverem revelados volto para vermos juntos
o resultado."
"Espere um pouco, preciso devolver a sua malha."
"Outro dia você me devolve", disse dando-lhe um tapa
carinhoso na bunda. Ela respondeu com um beijo devasso na boca.
"Tchau, Fernanda, você foi maravilhosa."
"Tchau, professor, foi bom fotografar com você. Te adoro.
Um dia nos vemos outra vez."
"Por que um dia ?"
"Porque será um dia, ora."
"E as fotos? Você não vai querer vê-las ?"
"O importante já foi feito, o que fizemos para mim já
existe, já tem vida própria. O resto é resultado,
é consequência. Um dia você me mostra."
"Tem certeza que não quer vê-las logo ?"
"Completamente. Um beijo. Nos vemos por aí."
"Um beijo", disse Thomas surpreso.
Fernanda continuava a mesma mulher enigmática e misteriosa, precisando
ser decifrada.