Depois de assistir a uma cansativa e apocalíptica palestra de
um fotógrafo alemão que discursava sobre o fim da fotografia
analógica, saí do Museu da Imagem e do Som debaixo de um
verdadeiro dilúvio, parecia estar caindo toda a água que São
Paulo estava esperando para varrer toda a sua sujeira.
Debaixo de relâmpagos, ventos e trovões, subi a rua Augusta
com água cobrindo o carro, como se estivesse embaixo de uma
cachoeira. A forte atração que sempre tive por água e
tempestades deveria ter me avisado da outra tempestade que
estava por acontecer, mas o pavor daquela chuva toda não me
deixou sequer adivinhar.
Na avenida Dr. Arnaldo uma árvore caiu tombada pelo vento e
esmagou um automóvel estacionado ao lado de uma banca de
flores, em frente ao cemitério. Alguns motoristas assustados
abandonavam seus carros e procuravam abrigo nas barracas que
se estendiam por toda a frente do cemitério, mas o vento
carregou também as flores e os toldos. Com um pouco de
sacrifício e medo consegui chegar em casa, ainda debaixo do
temporal que se mantinha com a mesma força telúrica.
Somente quando abri a porta do apartamento é que senti, apesar
da tempestade que assolava a cidade, aquela verdadeira
sensação de frio que precede as grandes tragédias. Joana
estava sentada no sofá, apenas com a luz do abajur, bebendo e
ouvindo o Bolero de Ravel.
Acendi as luzes, mas ela me pediu para apagá-las. Os raios
iluminavam intermitentemente a sala e os trovões faziam vibrar
os cristais, tudo tragicamente misturado com Ravel.
As crianças já estavam dormindo e havia pelo menos dois
motivos para eu me preocupar: primeiro a televisão desligada,
e segundo Joana bebendo uísque em casa, sozinha - justo ela
que costumava dizer que a melhor bebida para acompanhar
clássicos era um bom Sauvignon, tomado em taça de champanhe.
O que houve, Joana ? pergunto preocupado.
Aconteceu, Thomas, e não me pergunte os detalhes porque agora
eles não tem a menor importância. Há alguns meses sei de seu
caso com aquela garota da Aliança Francesa. No Great Balls,
naquela noite em que você e o Alex falavam sobre o livro, eu
já sabia. Quando perguntei quem era Marcela já sabia de tudo,
mas fiquei esperando todo esse tempo para ver se as coisas
mudavam. Ontem à tarde, quando estava mexendo em algumas fotos
suas para passar o tempo, encontrei os nus daquela garota que
vivia no estúdio e que você disse se chamar Adriana.
E que tem isso ?
Nada, se ela não houvesse fotografado você nu também, em cima
da motocicleta, no apartamento dela.
Foi um simples capricho, ela é fotógrafa também, argumentei.
Por favor, Thomas, guarde os detalhes com você. As suas
argumentações não tem a menor relevância agora. E hoje à
tarde, não importa como, fiquei sabendo que você esteve no
apartamento da Roberta, depois daquela exposição que vocês
foram ver no Museu de Arte Moderna.
Mas não houve nada, e além disso você não quis ir conosco,
preferiu ficar em casa vendo televisão.
Naquele dia não tinha havido mesmo, apenas discutimos sobre a fotografia
que vimos na exposição do David Hamilton naquele fim de tarde.
Por favor não seja ridículo, me poupe. Não tente explicar o
que não tem explicação porque eu estou muito machucada. Se
você não pode viver sem os seus casos, é porque tem algo
errado entre nós, e muito errado.
O temporal começou a passar, a chuva diminuiu, os trovões e
relâmpagos já pareciam distantes, mas em casa a tormenta
estava apenas começando. Olhei para Joana e não havia lágrimas
em seu rosto, como eu supunha fosse acontecer numa situação
dessas. Ela também não parecia esperar explicação alguma, pois
nem me deixava falar. Os acordes do Bolero cresciam no
ambiente e eu precisava falar algo, explicar, tentar remediar.
Joana, sei que não tenho sido leal com você e também não
tenho nenhuma boa desculpa para dar. Aconteceu porque
aconteceu, não pense que me sinto glorioso por esses
relacionamentos, muito pelo contrário, tem me deprimido muito
também.
Dá para imaginar.
Continuo te amando muito ...
Foram muito difíceis para mim esse últimos meses, você não
pode imaginar o quanto tenho sofrido calada. Nem todas as
pessoas tem a cabeça liberada a respeito do relacionamento
sexual de seu parceiro com outros parceiros.
Joana ...
Deixe eu terminar. Sempre tive para mim, ao contrário da
maioria das pessoas, que no amor não devemos transigir muito,
se não quisermos que os sentimentos se tornem medíocres.
Transigi muito nestes últimos meses e tudo isso está me
fazendo muito mal. Agora acabou, Thomas. Eu só quero que você
pense em uma maneira prática de resolvermos tudo isto, sem
ressentimentos, como gente civilizada.
Seja racional, não se precipite ...
Você pode mudar para o nosso apartamento em Pinheiros,
provisoriamente, até resolvermos todas as questões de ordem
prática. Esta casa continua sua, você entra e sai à hora que
quiser para ver as crianças, mas eu não gostaria de continuar
a dormir com você debaixo do mesmo teto, apenas isso.
Joana, apesar de tudo acho que poderíamos ter conversado
antes de você ter tomado essa decisão. Você também não está
sendo sensata, da mesma forma que eu não fui, e isso não é bom
para nenhum dos dois. Esse tipo de decisão não deve ser tomada
com a cabeça quente, porque corremos o risco de nos arrepender
depois.
Não é uma decisão de cabeça quente, é um assunto em que estou
pensando há mais de um mês para decidir, e que explodiu esta
semana com as fotos da Adriana e seu caso com a Roberta. Se
você teve a coragem de dormir com a Roberta, ex-mulher do seu
melhor amigo, que frequenta a nossa casa, é porque já perdeu a
noção de qualquer respeito pelas pessoas que te amam, e isso é
muito sério.
Os fatos não são exatamente como você descreve, ou melhor,
alguns são, mas não as circunstâncias. Eu gostaria de contar a
você detalhadamente tudo o que aconteceu, como sempre nos
abrimos um com o outro. Talvez eu não seja tão canalha quanto
você está imaginando.
Me poupe, Thomas, por favor. É melhor que não diga mais nada,
para não me fazer sofrer ainda mais.
Lá fora a tempestade havia terminado e as estrelas começavam a
aparecer, timidamente. Chego à janela e vejo quase toda São
Paulo acesa. As fortes chuvas sempre dissipam aquela névoa que
normalmente cobre a cidade e do décimo-oitavo andar de um
prédio situado em uma região alta como o Sumaré têm-se a
sensação de estar vendo toda a cidade: a Marginal com as luzes
dos seus carros em movimento, as luzes do Jóquei Clube, o
relógio em cima do Conjunto Nacional, as antenas da Avenida
Paulista, tudo. Apenas alguns minutos após a tormenta e a
cidade já estava transparente, pulsante, abrigando suas
tragédias.
Quanto a Joana, senti que estava irredutível e nada a faria
mudar de idéia, principalmente naquela noite. Aquilo tudo
aconteceu tão de repente e eu fiquei tão confuso, tão
perplexo, que mesmo se tivesse sido me dada a oportunidade de
defesa não teria encontrado nada consistente para dizer.
Combinamos que naquela noite eu dormiria lá ainda, no dia
seguinte me mudava para o apartamento de Pinheiros e começava
a tomar as providências de ordem prática para consumar a nossa
separação.
Naquela noite não consegui dormir, fiquei acordado durante
toda a madrugada, pensando. Não conseguia imaginar minha vida
sem Joana, apesar do que vinha acontecendo nos últimos meses.
No começo parecia que estava vivendo um sonho, que iria
acordar e que nada daquilo seria real, mas depois de algumas
horas de insônia constatei que o pesadelo era verdadeiro.