"Meu nome é Fernanda, fui modelo e fotógrafa em Paris.
A minha última pose foi a de uma mulher vestida de azul, caminhando
elegantemente ao lado dos dormentes de uma via férrea. Agora eu
quero viver também essa paisagem e reencontrar esse lugar com vocês."
Outra promessa cumprida: Fernanda havia dito que estaríamos novamente
juntos, e ali estava ela, me ajudando a completar o sonho. A última
imagem que eu guardava dela era a de seu corpo transparente, iluminado,
desvanecendo-se naquele sorriso sarcástico, um pouco antes de eu
passar aquela porta. Depois apenas a sua imagem na contra-luz, indicando-me
a ponte para passar.
"Chegue até nós. O cenário aqui é feito
de sonho, como você. Nós não estamos contemplando a
paisagem, nós somos a paisagem, nós a estamos vivendo."
"E qual é o nome dessa paisagem ?"
"É o nome que você quiser, é o nome em que
você se encontrar. Essa paisagem é a nossa história-sonho-vida-pessoas,
é o nosso encontro naquela tarde de verão, a sua fuga, qualquer
nome serve."
"Toda uma história, toda uma vida para terminar nessa praia,
e agora vejo esse espaço pequeno demais, apesar da distância
do horizonte. Gostaria de ajudar."
"Eu amo você, Fernanda, como amo Joana, Marcela e as crianças."
"Eu continuo não sabendo se amo você."
"Não importa. Eu não esperava mesmo mais do que essas
palavras. Você quer ser registrada nua também ?"
"Quero."
"Você sabia que quando há um relacionamento mais forte
entre modelo e fotógrafo, este acaba comendo aquela."
"Lógico que sei, são sensações que
nunca esquecemos. Só que são os dois que acabam se comendo."
"Não vai se decepcionar se eu não comer você
desta vez ?"
Resposta não registrada. O espaço ficou maior. As perguntas
sem resposta não limitam o sonho, aumentam o seu mistério.
Fernanda começa a se mover. As minhas mãos, pernas, olhos,
também. Eu devia ter adivinhado desde o começo que o vulto
azul só poderia ser o de Fernanda.
Estávamos todos ali agora. Joana e Marcela ignoraram a Fernanda.
As crianças acharam-na maravilhosa e abraçaram-na. Eu registrei
tudo, em close: Ricardo, Renata e Fernanda. Em pouco tempo estávamos
todos de mãos dadas, dançando ao som de um rock que vinha
lá do grupo de rapazes e moças, que também dançavam.
Olhando com mais atenção aos que lá estavam, através
da teleobjetiva da câmara, comecei a reconhecer as pessoas. Além
de Roberta e Paula, estavam também os amigos dos anos loucos, dos
rachas de sábado à noite.
Eles também nos reconheceram e acenaram. Lou fez um sinal para
que eu prestasse atenção na música que tocava. Era New
Town, do Bryan Ferry, mas cantada pelos Everly Brothers. Estavam
todos em estado de graça, como nós, dançando juntos,
agarrados, como nos verões do fim da nossa adolescência.
Roberta apontou para nós uma teleobjetiva imensa, e nos filmou
também. Paula acenou com um livro nas mãos, falando e apontando
para ele, mas não consegui entender nada porque a música cobria
a sua voz. Nesse instante um vento muito forte, estranho e inoportuno,
começou a invadir o nosso espaço. Depois se tornou tão
forte que começamos a ficar assustados com a perspectiva da despedida.
Pressentindo o fim Joana se antecipou e beijou Marcela, demorada e sensualmente,
com a força de uma paixão. Achei estranha a imagem, mas registrei
o beijo. As crianças chegaram e nos beijaram, a todos.
Joana me olhou com amor e começou a caminhar em minha direção,
com a suprema elegância de estar diante do fim, e se movendo como
se nada estivesse por acontecer. Filmei o seu andar, o seu rosto, em câmara
lenta, antes que ela chegasse e me beijasse. Beijou-me na boca, com amor,
depois deu as costas e começou a caminhar em direção
oposta à que eu estava, com as crianças. Fotografei os três
caminhando pela praia - essa foi a última imagem que registrei deles.
Marcela veio também em minha direção, com toda
a plenitude e alegria das nossas últimas horas naquela praia, com
a tranquilidade e a ilusão do começo da matéria, com
todo o espaço e tempo de quem está vivendo o início.
"Não consigo me deixar envolver por essa sua imagem do fim,
porque esse fim não existe. Para mim ele é apenas o começo,
a descoberta."
Me beijou e partiu também, em direção oposta à
de Joana. Sem se despedir, Fernanda começou a caminhar em direção
à linha férrea, sumindo e aparecendo, piscando no tempo,
na iminência de retornar ao estado de vulto.
Dois homens altos e fortes, vestidos com roupas de metal e couro, chegaram
e começaram a retirar o cenário de fundo: Roberta, Paula,
os amigos da adolescência e a música. Depois levaram a cama
de Marcela, os discos, os livros, e por fim a cadeira de balanço
de Joana.
Todos já iam muito longe e haviam se tornado também apenas
vultos na distância. Fernanda caminhava agora, novamente com elegância,
ao lado dos dormentes da via férrea. Registro as últimas imagens.
Na areia ficaram apenas os novelos e o tricô inacabado de Joana.
Estava para me retirar também quando chegou Alex, com fones de
ouvido e um microfone nas mãos, muito agitado e gritando coisas
sem sentido.
"Quando chegar a hora o trem de ferro esmagará as rosas
adormecidas nos trilhos..."
O fio do microfone que ele segurava se perdia na distância, como
nos campos de futebol. Ele gritava e corria ao meu redor, e à medida
que corria se enroscava no próprio fio.
“... e na epiderme do tempo o homem sentirá um medo de aço."
"Você agora está trabalhando também como repórter
de campo ?" gritei para me fazer ouvir no meio do barulho ensurdecedor
que o vento provocava.
"Não. Vim fazer uma última entrevista com você."
"Não há entrevista alguma a ser dada, Alex, nem a
você nem a ninguém. Eu já me entrevistei durante todo
o livro, até sangrar. Além disso tenho que concluir umas
imagens."
"Imagens de quem, porra ? Já foram todos embora e você
está sozinho. Eu quero saber como é que você está
vendo o fim."
"É difícil dizer, agora que todos já foram
embora, mas estou vendo de uma forma elegante. Guardadas as distâncias
e os meios, mais ou menos como um diretor de cinema fazendo a edição
final de seu filme, como um teatrólogo vendo o último ensaio
de sua peça antes da estréia, como um poeta ressurgindo do
inferno, como..."
"Eu perguntei de você, porra, não desses caras todos.
A história é sua, palhaço. Você fala, fala e
não diz nada."
"É ridícula essa sua entrevista. Você também
pergunta, pergunta, e não pergunta nada. Que merda de jornalista
é você ?"
"Eu quero que você me conte o que aconteceu na sua vida,
entre a sua partida para Paris com a Fernanda e esta manhã, quando
foram todos embora."
"É difícil explicar sem voltar ao começo e
falar de Fernanda descendo as escadarias daquele imenso casarão
em São Vicente, gostosa, com aquela minisaia transparente."
"Você tem que falar de você, porra, e de mais ninguém.
Não adianta ficar divagando, falando sobre os outros, assim como
divagou durante toda a vida. Volto à pergunta, agora de forma mais
objetiva: como é que você se sente..."
"Chega, não me encha mais o saco."
Um bom dia a todos, e obrigado pelo comparecimento.
A madrugada se foi, o sol caiu sobre mim, e sou obrigado agora a
mostrar ao dia as minhas mãos vazias. Recolho os trapos do que esta
noite fui e queimo-os, dispo os retalhos do meu corpo cansado e atiro-os
ao mar. Coloco os óculos escuros e vejo a manhã verde. Só
o que ficou em minha boca foi um gosto de estrelas mortas.
Tentarei viver, novamente.