Mal começo a colocar Tristessa na rede e percebo a tentação
de narrar a história de Thomas cronologicamente, em linha
reta, do começo para o fim, o que não faz sentido, porque
em nossa cabeça o tempo não se organiza dessa forma.
Estamos sempre procurando a origem das coisas, como se tudo tivesse
que ter um começo, daí a procura da linearidade dos fatos.
Mas não adianta. Se existir um começo ele está fora
de nós, portanto não existe. É sempre a porra da mania
da análise e não da síntese, da procura dos fatos
e não da essência.
Thomas esteve o tempo todo procurando, e com muito desespero, estruturar
a sua vida a nível do presente, do agora, do instante, do que estava
à sua volta, das conclusões que conseguia tirar para forjar
a própria realidade, mas ela sempre lhe escapou como água
escorrendo por entre os dedos.
É como se estivesse sempre planejando o futuro à luz do
passado, como se conseguisse somente ser feliz em outro lugar, onde
nunca conseguia estar.
Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos
nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós
que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados,
somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas
em nossos bolsos vazios.
Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa,
somos nós que caminhamos para trás.