Ainda no elevador Thomas liga para Marcela, mas ninguém atende.
Na dúvida, vai para sua casa.
O apartamento é todo iluminado por lâmpadas halógenas.
Ela dorme, sob um foco de luz, coberta apenas por um véu branco
e segurando uma rosa.
"Faz pose até para dormir",
pensou. "Melhor seria se ela deitasse de bruços e colocasse
a rosa sobre a bunda."
O primeiro dia em que foram a um motel para fazer fotos parece distante,
não existente. Thomas mal conseguiu tocá-la. Ele tira a rosa
de sua mão, toca os seus lábios e ela acorda.
"Você não dorme, Marcela, você posa. Porque
o véu e a rosa".
"É porque eu sabia que você vinha. Como é que
foi a sua noite ?".
"Ainda não foi desta vez que aconteceu a poesia do imprevisível".
Marcela deixa de lado o véu e a rosa, coloca uma camiseta comprida
sobre o corpo e vai direto ao assunto.
"Estou preocupada com você, Thomas".
"Porque ? Ainda não aconteceu a poesia do imprevisível,
mas está tudo sob controle."
"Hoje li um trecho do livro e fiquei preocupada. Porque sei que
estamos todos nessa história, nessa sua ansiedade de colocar um
bom livro na rede, e achei tudo muito tenebroso".
"O que você viu de tenebroso e onde ?"
"É um trecho que começa em um lugar feio, triste,
que você diz parecer um cemitério de automóveis e termina
na praia, em um lugar com o nome estranho de Nigger Bay. Estamos todos lá - desde eu e você até
Joana e as crianças, Fernanda, Alex, e tudo é muito triste,
nebuloso, perdido, com uma cara de fim".
"Eu posso até imaginar do que você está falando,
faz algum sentido. Mas a cena da praia é a última e eu ainda
não a escrevi, e muito menos a coloquei disponivel na rede. Deve
ser algum engano, alguma coincidência. Qual o nome do arquivo ?"
"Acho que é final.htm. E está no diretório
Tristessa."
Thomas procura alguma coisa para beber e encontra uma vodka. Coloca
gelo, liga o microcomputador e conecta, ansioso. Tenta acessar o arquivo
mas não encontra nada.
"Você tem certeza de que o nome é esse ?".
"Tenho. Eu o li ontem. Paula também
leu um arquivo chamado paris.htm e me ligou para saber o que eu
achava. Não consegui ler o arquivo. Só ela conseguia acessar."
Ao ouvir o nome do segundo arquivo Thomas fica arrepiado.
"Deve ser alguma brincadeira, alguma coincidência, algum
engano, porque tudo que você está me dizendo ainda não
foi escrito. Tem até a ver, mas não foi escrito, só
está na minha cabeça. Talvez alguém tenha descoberto
o endereço na rede e esteja fazendo alguma brincadeira."
"E adivinhando o que você vai escrever, com o seu estilo
de escrever ? Você deve estar brincando conosco."
"Qual foi mesmo o arquivo que Paula passou a você ?"
"paris.htm. Gravei fácil o nome porque Fernanda vinha
de Paris."
Thomas tenta acessar, mas não consegue.
Não existe nenhum dos dois arquivos.