Acordo agora, às onze horas da manhã, fodido. Lá
fora chove, desgraçadamente.
Ainda estou com o gosto da cerveja de ontem na boca. Coloco um CD dos
"Mamas and The Papas" e aperto o power do amplificador. Os leds
iluminam a manhã. Dedicated to the One I Love. Nunca uma
música caiu tão bem numa manhã tão filha da puta
como esta. Michelle Phillips, um tesão de mulher.
Mais uma vez constato que é impossível escrever em linha
reta, são muitas as histórias que me vêm à cabeça
durante o processo de criação. Contudo é preciso escrever,
é preciso escrever para não deixar morrer o sonho, porque
senão de nada adianta continuar vivo.
Monday, Monday. California Dreamin. Tempo louco, de muita energia,
de pré- -revolução, ou contra-revolução,
pressagiando a grande derrota de 1968. Leio o que escrevi ontem, principalmente
as últimas páginas, que rabisquei ao som de Billie Holiday e Gerry
Mulligan, já meio out of this world, mais para come
rain do que para come shine, e incrivelmente não fico
tentado a rasgar tudo. Se continuar assim acabo por acreditar mesmo que
consigo escrever um livro noir, um cult maldito, e apesar
das profecias da Roberta colocar na rede.
Penso em mostrar logo a ela, quem sabe me corta o embalo. Dedicated
To The One I Love, again. Michelle é incrível, tão
incrível que mereceu dos Beatles uma música maravilhosa. Ontem
era o sax do Mulligan, hoje é ela. Começo a ficar viciado
em escrever ouvindo música. Desconfio que é porque no fundo penso
que não há necessidade de se escrever coisa alguma, não
faz sentido, é um desperdício muito grande de tempo, e consequentemente
de vida.
Para que ficar registrando fatos que já aconteceram, ou inventando
histórias que não aconteceram apenas para ilustrar idéias
? Se quiser me expor aos outros, não há necessidade alguma
de ficar desperdiçando horas, dias, meses, anos, inutilmente. É
mais eficaz sair pela noite e me deixar acontecer na medida em que as pessoas
forem me conhecendo, pela palavra e pela imagem. Como há muito tempo
atrás.
Mas lembro das palavras da Roberta, da necessidade de abrir a cabeça
das pessoas, e me consola pensar que o livro atinge um universo maior.
Sei que escrevo não porque enxergo melhor do que as outras pessoas,
não porque quero acrescentar algo ao que os outros pensam, mas porque
gostaria de fazer com que enxergassem o que elas próprias pensam
e sonham, como se as minhas páginas fossem a superfície de
seus espelhos pela manhã.
Estou ficando muito sério para um domingo de chuva, e esse não
é o objetivo. Ouço agora um CD de rock dos anos 50, do fim
da década. Bobby
Vee canta Devil or Angel, e inevitavelmente me ocorre Marcela.
Devil or Angel ? Se não sabemos de nada, para que ficarmos atribuindo
valores ? É melhor tentar outras dimensões. Fellini, por
exemplo, redescobriu as dimensões visuais do pensamento e as transformou
em imagem. Presente, passado, futuro, sonho, fantasia, realidade, todos
esses planos da vida no plano vazio de uma tela branca.
Mas hoje eu já ficaria infinitamente satisfeito se conseguisse
ao menos redescobrir a minha cara no espelho.