Plano VidaNatasha's SmartDrugs Internet Café
 
 

Um pouco antes das seis chego no Internet Café de Natasha. O ambiente é high tech, decorado em tons escuros. Cores azul metálicas se misturam com escalas de cinza, tudo mais ou menos nos tons e design usados nos browsers da moda. Natasha vive exageradamente a tecnologia, está sempre acelerada, com a última marcha engatada.

As duas estão sentadas diante de uma estação, tomando os famosos cocktails da casa, navegando e discutindo. Peço um drink também e me sento junto a elas. O assunto parece ser excesso de informação.

"É fascinante a forma pela qual os executivos procuram continuam tentando se ajustar desesperadamente ao bombardeio de informações", argumenta Natasha, que já foi executiva também. "Mas acho que vale a pena participar deste apocalípse. Quem tiver mais “fitness", maior capacidade de se adaptar, de filtrar, sobreviverá e contará a história dos últimos anos deste século".

"Não estou tão à vontade assim como você, Natasha. Sinto que a próxima peste já está chegando, via éter, diretamente ao cortex cerebral das pessoas. Desta vez ela não vem pelos esgotos nem pelo sangue, mas via éter. Esse excesso de energia que trafega impunemente sobre as nossas cabeças, transportando zeros e uns, me parece algo que não se conseguirá filtrar porque as pessoas acreditarão sempre estar precisando dele."

Uau. Parece que papo pesado. Penso em cortar, já está na hora de irmos para o aeroporto, mas um sujeito que está sentado na estação ao lado entra na conversa.

"A moça de olhos verdes está com a verdade. Com quase todos os nossos bens culturais reduzidos a código binário o homem, que não está projetado neste momento para abosorver esse excesso de informação abstrata que é colocada diante dele todos os dias, acabou num beco doente. Não existe interface que possa minimizar a sua capacidade de adaptação neste mundo. Não existe estado, corporação ou qualquer associação desses dois que possam ajudá-lo neste momento, principalmente porque estados e corporações também sao compostas de seres humanos".

Olho bem para o sujeito e vejo que ele deve ter mais de oitenta anos, se veste quase como um mendigo e as suas mãos tremem quando fala. Quero ir embora mas arrisco entrar na conversa.

"E como vamos sair dessa ?", pergunto.

"Somente trilhando o mesmo caminho que chegamos até aqui, pela luta da sobrevivência da espécie. Criamos ...".

Deixo de lado o sujeito. O texto dele escrevo mais tarde. Não tenho muito tempo. Fernanda me dá uma passagem para Veneza, uma reserva de hotel e um envelope que só devo abrir quando chegar lá. Me fala rapidamente de uma exposiçáo fotográfica a que devo comparecer. Logo em seguida devo encontrá-la em Paris.