Algo me diz que não cheguei até estes dias de bolsos vazios.
Foram incontáveis horas de masturbação política,
outras tantas de passarela, orgasmos a perder de vista e mais 2.000 horas
editando imagens - fora outras tantas por trás de um visor.
A imagem fotográfica geralmente impõe limites, imobiliza
pessoas que se movimentam, gente que na realidade tem vida e movimento
próprios. Para mim ela não é apenas uma forma de registro,
um meio de reproduzir uma cena, mas uma forma de expressar sentimentos
e emoções.
O que eu enxergo hoje por trás da objetiva não são
formas estáticas, agradáveis, bem equilibradas e arranjadas
no espaço, mas a dimensão da minha própria existência,
o prolongamento do sangue que corre em minhas veias, o suor que escorre
em meu rosto.
As grandes avenidas arrebentam em cores e ruídos em minha cara,
e todas as ruas do mundo não passam de repente de um grande cenário
colorido e luminoso onde as pessoas caminham apressadas, entrando e saindo
da cena, dirigidas sabe-se lá por quem.
Nas ruas elas vivem o patético e o absurdo dos contrastes, uma
espécie de vida selvagem, perplexas, diante de outro puta monte
de gente correndo de um lado para o outro - sem saber atrás do quê.
É muito difícil para mim, hoje, entender onde termina
a fotografia e começa a minha vida.
O Thomas quer
escrever um livro com personagens vivas empurrando a sua história,
mas ele próprio não sabe o que esta reservado para o seu
personagem no final. Nem ele, nem o Alex
e muito menos a Roberta,
que está dando apoio irrestrito ao projeto.
Ele acha que pode mexer com as pessoas como brinca com os personagens
de um livro. Não percebe que também ele é apenas mais
uma personagem nesta selva toda.
O mundo digital ficou pequeno para todos nós.
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