Me formei em Direito, mas desisti depois de três anos desperdiçados em um inútil escritório especializado em Direitos Autorais. Seus donos viviam de extorquir inocentes internautas que se utilizavam de informações digitais ofertadas na rede ou encontradas em pacotes "royalty free". O sujeito usava uma imagem, uma ilustração e ... processo nele.

A substituição do analógico pelo digital confundiu um pouco o conceito de autoria, pois a cópia passou também a ser original, manipulável. Como ficou meio nebuloso o conceito de direito autoral na rede, eles optaram por ferrar os sem defesa.

Mas deixa isso para lá. É passado. Eles lá que se fodam.


Casei com um sujeito chamado Thomas, que vocês já devem ter cruzado com ele por aí na rede. Ele está escrevendo um livro na Web chamado Tristessa, no qual me incluiu, ao lado de alguns outros vultos amigos nossos.

Antes dessa novela toda, ainda na fase fotográfica de Thomas, acabei virando modelo, e depois mãe. Após um longo tempo sem grandes indagações e especulações metafísicas interessei-me pela sociologia da arte, por influência de Roberta. E isso num tempo em que já se havia perdido a perspectiva da arte como componente social.

Hoje me interesso pela teoria do caos e começei a pesquisar a sua influência na literatura contemporânea. Este foi o papel que me arranjaram nesse Chorus Line sem música.

Meu amor pelo cara de que falei aí em cima ? Já era.



Mas também não é tudo tão simples e banal assim, houve muita paixão. E foi muito legal enquanto durou, uma verdadeira viagem. Apesar de Fernanda - um amor crônico na vida de Thomas - andar sempre por perto, a viagem foi muito boa. Valeu a pena.

Posso ter sido a mulher de sua vida, lenda, mito, poema, como ele diz em um capítulo que li de suas páginas, mas - desta vez ao contrário do que ele diz - não consegui acompanhar a sua loucura e a sua permissividade.

Além de Fernanda depois ele acabou se enroscando com a minha amiga Roberta, ex-mulher de Alex, seu melhor amigo. Depois pintou a Marcela e explodi ao som de um Bolero de Ravel regado a uísque.



Hesitei muito antes de me permitir entrar para essa rede, para esse livro e me expor nesta página pessoal. Acho tudo isto muito caretaço. Não sei se este é o caminho, o formato. O caminho talvez, mas o formato duvido um pouco. Mas souberam me convencer. O Passenger é foda quando quer persuadir alguém. Você acaba sucumbindo.

"Joana, mulher de Thomas, sempre foi muito branca, toda paz. Sempre um barco, uma promessa de chegada, por isso ele teve sempre muita dificuldade em escolher o momento certo para colocá-la em sua história".

Os caras acabaram me convencendo com babaquices como essa, mas na vida real só o que restou mesmo foi uma casa vazia, com as suas portas e janelas fechadas e uma música misteriosa aprisionada no vazio.



Um dia sei que ele não vai resistir e contará para vocês um sonho que teve, em que eu me chamava Joana-Sexo-de-Anjo e era uma puta nas vitrines de Amsterdan. Nem ele sacou, mas esse sonho revela um segredo muito legal e muito meu.

Em uma tarde de muito sol e de muito vento, me contou ele, estávamos deitados na areia de uma praia muito distante, queimados, nus, contemplando o azul do céu. De repente pressentimos a presença de um vulto que vinha caminhando, ainda muito longe, mas em nossa direção, e que logo viria participar do nosso cenário. Na medida em que ele chegava mais perto, podíamos perceber que era alguém vestido com uma roupa muito escura, possivelmente um homem, com um capa preta balançando ao vento e com um chapéu também preto, caminhando lentamente, sem pressa.

Quando ele chegou ao alcance do nosso horizonte visível eu me levantei, sem sequer estranhar sua presença, e caminhei nua em direção a ele. Por mais que o vulto se aproximasse, nunca conseguia chegar onde estava Thomas. Demos as mãos e caminhamos para bem longe até nos perdermos na distância.

"Identifiquei o vulto como sendo o de alguém muito conhecido, o andar era o mesmo do Alex, mas a identificação ficou apenas na incerteza da distância".

Essas foram as palavras com as quais ele terminou a narração do sonho.



Se vocês quiserem conversar um pouco sobre a influência da teoria do caos na literatura contemporânea é só clicar ái no meu novo nome de batismo, joana@quattro.com.br.

Às vezes me parecem que todas as pessoas do planeta estão sendo rebatizadas, carregando @ em seus novos nomes.

Penso que no futuro as crianças, quando nasçam, já devam ser batizadas com @ em seus nomes, para evitar mudanças posteriores em seus registros civís.



Agradeço aos queridos designers da minha página por não terem inventado de colocar um daqueles cafonérrimos "gifzinhos" animados ou aqueles javinhas caretaços e sem inspiração alguma, que travam metade dos micros do planeta. Kisses.