Plano Matéria Incorpóreo

A última imagem que ficou para trás em Paris foi a de Fernanda, desvanecendo-se naquele sorriso sarcástico. Seis horas da manhã agora. Os sinos da igreja tangem roucos, e o seu repicar viaja pela avenida. Parece a última manhã da vida.

A avenida da praia está molhada de uma chuva parada há anos, a temperatura está alta e uma leve bruma cobre o mar, as árvores e os prédios. Paris ficou apenas na lembrança depois que eu passei aquela porta, e o cenário agora é da cidade onde nasci. Os galhos secos das árvores da praia se debruçam sobre a minha cabeça, dobrados pelo vento, e a paisagem que se perde diante dos meus olhos é de completo abandono - ninguém na rua.

Do meu lado esquerdo a murada, a mesma de onde Júlia gritava pelo namorado que se afogava naquela madrugada de carnaval, e no ar ainda aquela mesma sensação de mistério e morte. O rosto de desespero de Júlia, flou, me visita. Retiro do bolso a foto amarrotada que ainda guardo dela, e a deposito na murada. O silêncio colorido dos pierrôs, arlequins e colombinas, ainda permanecem na foto. Através da bruma, vejo que a velha fortaleza ainda está lá do outro lado do canal, em pé.

À minha frente a Ilha Porchat, pequena, perde-se na distância, infinitamente menor do que os gigantescos edifícios que acompanham toda a orla da praia. Do meu lado direito o clube, o ponto de partida dos rachas que marcaram o fim da adolescência. O velho XR-3 branco, envenenado, tantas vezes malhado e batido, está lá parado. Motor ligado, faróis acesos, limpador de pára-brisas funcionando, limpando uma chuva que parece ter parado há anos.

Caminho pela calçada em direção à ilha. Os gigantescos edifícios estão à minha direita, com seus imensos terraços e suas enferrujadas janelas protegidas por vidros verdes, mas todos abandonados, sujos, castigados pelo vento e pela maresia. Caminho pela calçada em direção à ilha que se perde na distância, até encontrar a faixa de areia.

Fim de festa. Não existe mais o ensaio registrado em imagens digitais, não existe Fernanda, não existe Paris, não existe nada. Os bolsos estão vazios. Tiro o paletó do smoking, os sapatos, e atiro-os longe. Arregaço as barras da calça e continuo a caminhar, agora com as ondas morrendo aos meus pés.

Do meu lado esquerdo continua o mar: profundo, imenso, enigmático. Do meu lado direito vão ficando algumas coisas as quais não me interessa recordar. Passado e presente se confundem, amalgamados em uma só dimensão. No princípio era o verbo, agora é só uma confusão desesperada para tentar redescobrir o tempo.

Chego em frente à igreja, de onde há pouco vinha o ruído dos sinos tangendo. As portas estão todas abertas, inclusive as laterais, mas não há ninguém lá dentro. Apenas tocos de velas acesas, resistindo bravamente ao vento que vem do mar e entra pelas portas escancaradas. No ar flutua o eco do antigo coro, ensaiando uma marcha nupcial. Saio da igreja.

Dia claro ainda, mas as luzes da grande avenida se acendem. Apesar da ausência das pessoas, as engrenagens estão funcionando perfeitamente. Por um instante me visita a imagem da casa onde nasci, do grande areal branco e da velha casa de madeira, e com elas a vontade de desvendar os mistérios da minha infância. Quando me chegam essas imagens as pontas dos meus dedos chegam a tocar a poeira dos primeiros passos, mas as minhas mãos retornam vazias.

Continuo o meu caminho, ou não caminho, e chego ao velho cinema. Começa a ventar mais forte. As portas ainda estão abertas, mas na bilheteria não há ninguém e os ingressos voam pela calçada, carregados pelo vento. Na entrada não há porteiro, na sala de espera não há ninguém esperando, e as poltronas da sala de projeção estão vazias - apenas uma imagem na tela.

O facho de luz sai do projetor em forma de cone, atravessa todo o ambiente e reflete na tela branca uma imagem estática. O filme parou no exato momento em que um homem comia uma mulher. Num canto da tela, tesão estampado no rosto, a boca e olhos da mulher rouba o conteúdo do resto da imagem, mas o seu grito de prazer não é ouvido. Somente o ruído do projetor, esforçando-se para manter na tela a imagem estática.

Saio do cinema, caminho mais um pouco, sempre com o mar à minha esquerda, e entro no antigo bar, com o velho toldo surrado pelo tempo, onde passei muitas noites e madrugadas bebendo com os amigos, à espera do sol nascer. As luzes estão todas acesas, mas também o bar está deserto. Copos de uísque pela metade, ainda com gelo, as mesas ainda úmidas do suor das canecas de chope geladas, mas ninguém para beber.

Às vezes a sensação é de que todos partiram há muito tempo, às vezes a sensação é de que as pessoas acabaram de sair. Deixo o bar, e uma bola rola em direção aos meus pés descalços, vinda de uma rua perpendicular à praia, mas não aparece criança alguma para apanhá-la. Lembro de um verso que um dia escrevi, ainda adolescente, lamentando a infância perdida: A bola do menino que um dia fui / rola agora para o fim da rua / e eu choro o último pranto / pelo brinquedo que não mais verei.

A próxima parada será a livraria que tanto frequentei, mas resolvo descansar um pouco. Sento em um banco da praia, e fico observando as ondas, rebentando quase aos meus pés. Contemplo o mar, e pela primeira vez penso em racionalizar. O que significa tudo isto ? Será este vazio a dimensão da morte ? Qual o papel de Fernanda nisto tudo ? Mas acabo por concluir que o melhor é não tentar adivinhar nada, deixar as coisas acontecerem, mesmo porque até este momento não sinto qualquer ansiedade, espanto, medo, nada.

Levanto, continuo a caminhar, e percebo que começo a me integrar cada vez mais no cenário, a me tornar cada vez mais a paisagem e menos eu mesmo. De certa forma Fernanda já havia me preparado para esta experiência. Paula já havia me recomendado não viajar a Paris.

Caminho sozinho por uma rua da cidade onde nasci, apenas isso. Estou só, e compreendo perfeitamente. Sempre soube que um dia aconteceria a morte, o vazio, o nada, que um dia seria eu a paisagem, o observado, e que as coisas existiriam em mim.

A grande livraria onde estive centenas de vezes também está aberta, e mesmo sabendo que também lá não há ninguém dentro entro para conferir. Às minhas costas o vento derruba as últimas revistas, os jornais, e arrasta-os pela avenida. Percorro todo o interior da livraria, mas nada. Nas dezenas de metros de prateleiras, apenas um livro, que jamais li: A Ponte Prateada, de Manfred Hyber. Deixo a livraria quando já está escurecendo e retorno à avenida, pensando em chegar até a casa onde nasci.

Passo em frente à velha estação rodoviária, normalmente um dos lugares mais movimentados da cidade, mas também não há ninguém. Todos os ônibus já partiram, e não há sequer um lenço acenando. Somente uma maleta, abandonada em uma plataforma de embarque.

Chego até ela, abro, e encontro todo a minha câmara de vídeo digital. Me ocorre que essa sensação de morte pode não ser o fim, existe ainda uma missão a ser cumprida, senão não haveria razão alguma para o equipamento. A esperança de vida cresce novamente dentro de mim, os meus olhos brilham de alegria e é como se a minha morte houvesse sido adiada. Saio correndo pela noite vazia, à procura da casa onde nasci.

Enquanto corro como um louco pela avenida da praia, as imagens vividas passam por mim, novamente como imagens vistas através da janela de um trem em alta velocidade, rasgando o tempo. As imagens parecem não ter passado nem futuro, está tudo muito longe da vida e da realidade palpável. As imagens e os objetos parecem fluidos, viscosos, sem forma. Está tudo devastado, decomposto, calcinado.

É quase manhã e não encontro a minha casa, o grande areal branco e a velha casa de madeira. Uma folha de jornal chega aos meus pés, trazida pelo vento. A data do jornal é 21 de dezembro de 1999.

"PORRA, ONDE ESTÁ O GRANDE AREAL BRANCO E A VELHA CASA DE MADEIRA ? ONDE ESTÃO VOCÊS TODOS ???"