O sábado em que marquei as primeiras fotos com Marcela amanheceu
triste e cinzento. Com uma desculpa estúpida qualquer saí de
casa dizendo a Joana que iria voltar apenas no fim da tarde. Quando tirei
o carro da garagem começou a chover.
"Começo de merda", pensei. Fotografar onde ? Sugerir
um motel ? Não me parecia uma boa idéia, para um primeiro
dia.
Quando cheguei na porta da escola, onde havíamos combinado nos
encontrar, a chuva já tinha parado, mas ela ainda não estava
lá. Aproveitei o tempo para pensar mais um pouco, planejar o que
fazer.
Ela estava atrasada e por um momento cheguei a pensar que talvez fosse
até bom que não aparecesse, mas antes que concluísse
o pensamento, Marcela surgiu atravessando a rua. A chuva começou
a cair novamente e ela entrou no carro toda molhada, com cara de quem dormiu
mal, ou não dormiu nada.
“Dormiu bem ?" perguntei, para dizer alguma coisa.
“Bastante bem, sonhei com você."
“Não parece. A sua cara é de quem passou a noite acordada,
não de quem sonhou comigo."
Imediatamente me arrependi do que havia dito.
“Onde é que você sugere irmos para fazer as fotos ?"
continuei. É melhor esquecer as bobagens ditas do que tentar consertar.
Ela hesitou um pouco.
“Sei lá, vamos ao Parque Ibirapuera."
“Está bem, respondi, mas já sabendo que essa alternativa
era inviável. Além de eu detestar o parque, certamente algum
amigo, ou a mulher de um amigo, que é muito pior, estaria por lá.
E além do mais é um lugar sempre infestado de pessoas incrivelmente
saudáveis, poluindo todo o ambiente."
“Você tem pressa de voltar ?" perguntei.
“Não. Três ou quatro horas da tarde está bem. O
meu namorado vai ligar às cinco."
Lembrei de um lugar onde meu pai me levava para pescar quando criança
e disparei:
“Então vamos até o Caminho do Mar. É um lugar muito
agradável, e faz algum tempo que não vou até lá."
“Está bem."
Marcela estava bem diferente da noite de quarta-feira, em que ficamos
conversando até tarde. Falava pouco e respondia quase por monossílabos.
“Você está diferente hoje. Arrependida por ter vindo ?"
“É que hoje não estou nos meus melhores dias, estou meio
dispersiva, avoada, enfim, não estou bem. Aquela falta de concentração
na vida, entende ?"
Quando chegamos chovia novamente. Parei o carro na represa, onde muita
gente pescava, apesar da chuva. Não havia a menor possibilidade
de fotografarmos. Do barranco onde estacionei o carro dava para se ter
toda a visão do pessoal pescando, bem abaixo do plano em que estávamos.
“Andamos quase uma hora de carro para chegarmos ao paraíso, e
cá estamos em um cenário de filme de bruxas", eu disse.
“Aqui é calmo, gostoso. Tem uma paz muito grande nessas águas,
e isso acaba transmitindo paz também para as nossas cabeças.
Eu estou me sentindo melhor".
Depois de algum tempo de conversa perdida dentro do carro, contando
novamente as nossas alegrias e tristezas, passadas e presentes, veio o
silêncio. Um olhando nos olhos do outro, era como se estivéssemos
nos perguntando:
“E agora ?"
Tímido como um adolescente saído de um internato, apanhei
a máquina e comecei a fazer umas fotos. Closes do rosto, dos olhos,
do sorriso tímido que uma câmera sempre provoca, mas tudo
sem sair do carro. Terminado o rolo de filme veio novamente o silêncio,
novamente olhos nos olhos, aguardando uma iniciativa qualquer.
“E nós, Marcela ? acabei jogando a pergunta, depois de alguns
minutos de silêncio e expectativa. O que é que você
acha que podemos esperar um do outro ?"
“Não sei", respondeu colocando a mão na minha perna,
para enfatizar o que diria a seguir.
"É uma loucura e uma impossibilidade tão grande que
tudo não deve passar de hoje. Me faz muito mal saber que estou roubando
você de outra mulher, não gostaria que fizessem isso comigo.
Não conheço a Joana, mas gosto dela porque ela ama você."
“Acho muito bonito você gostar dela."
“Eu gosto dela e não gostaria de magoá-la."
“Também a mim não agrada nada a idéia de magoar
Joana", respondi passando a mão em seus cabelos. "Além
do mais existem quase vinte anos nos separando."
“Eu sei que a minha idade incomoda você, mas para mim isso não
tem nada a ver. Não fosse sua mulher, acho que teríamos alguma
chance."
As palavras que dizíamos não correspondiam aos nossos
gestos, e antes de mim, ela tomou a iniciativa. Sutíl, distraída,
inocente, quase em um movimento natural, encostou a perna na minha. Depois
foram as mãos que vieram descansar ao redor do meu pescoço,
e entre as palavras sem sentido que trocávamos veio finalmente o
corpo-a-corpo.
Durante algum tempo nos tocamos quase com violência, e as nossas
mãos e bocas se encontraram e se machucaram até terem a certeza
de que todas as partes de nossos corpos já haviam sido apalpadas,
beijadas e chupadas.
Depois o cansaço, novamente o silêncio - agora um silêncio
como se estivéssemos vivendo o dia anterior ao da criação.
Era como se naqueles instantes que se seguiriam o mundo estivesse novamente
por ser criado, e a nós cabia a responsabilidade pela invenção
da palavra.
“Está ficando tarde, é melhor voltarmos", ela disse.
De repente Marcela me pareceu para baixo novamente, mas preferi pensar
que ela estava com medo de que as coisas pudessem progredir e fôssemos
parar na cama de um motel, naquela tarde mesmo. Isso não era bom
para nenhum dos dois, naquele momento. Eu porque até medo de ir
preso tinha, por causa de seus dezessete anos, ela porque não tomava
pílulas e já andava meio assustada com suspeitas de gravidez.
“Esta bem, Marcela, como você quiser. Mas vamos parar para comer
no caminho, pois passam das quatro e estou com fome".
Enquanto eu dirigia, ela voltou a ficar novamente carinhosa, agora mais
do que jamais estivera durante todo o dia. Com o seu corpo quase grudado
ao meu e os braços sobre os meus ombros, me beijava sem parar, quase
me impedindo de dirigir. Mas estava muito gostoso, e a minha vontade era
de que o carro estivesse indo na direção contrária
à de nossas casas.
Paramos em um lugar chamado Cantina do Pintor, no começo do Caminho
do Mar e caminhamos abraçados até o restaurante. Quando entramos
senti pela primeira vez o peso da nossa diferença de idade. Nada
aconteceu que pudesse me levar a pensar nisso, até pelo contrário,
mas nem sempre conseguimos dominar os nossos pensamentos.
Na saída esboçamos um diálogo que não levou
a lugar algum.
“Você não vê a desvantagem que eu levo ? Hoje, quando
eu chegar em casa, é bastante provável que meu namorado já
tenha ligado e que eu vá ficar sozinha esta noite. Quanto a você,
quando chegar, terá a sua Joana, cheia de carinhos, esperando."
"É, não dá mesmo. Nem começamos e você
já está cobrando."
"Você vê ? Saiu espontâneo, mas na verdade foi
uma cobrança mesmo."
"O mais sensato é continuarmos amigos", disse, beijando-a
nos olhos.
Durante todo o percurso de volta Marcela já estava fria novamente,
e não falamos quase nada. Só que agora o silêncio era
vazio, frustrante, oco, sem mistério algum.