Quando chegou ao local do show as projeções já
tinham iniciado, e para se misturar com o povo Thomas entrou pelo mesmo
lugar dos convidados não especiais.
Ao entrar no recinto os convidados eram totalmente orientados por setas,
mas acabavam envolvidos por elas e se perdiam. A projeção
ocorria em todas as partes, em paredes e tetos virtuais. Tudo acontecia
ao redor das pessoas, que continuavam apenas a seguir as setas.
Enquanto seguiam as indicações, alguns olhavam para os
lados, outros para cima, mas todos perplexos com o tamanho das imagens
de alta definição que se erguiam ao seu redor, projetadas
em gigantescos telões virtuais. O primeiro movimento mostrava a
história do homem, desde os primeiros dias, quando a vida dependia
apenas da sua supremacia sobre o mundo animal.
Thomas caminhava anônimo pelo interior de sua grande festa, observando
atentamente a reação do público à obra. Enquanto
as pessoas derramavam sacos e sacos de pipoca pelo chão, muitos
anos de caça e pesca se passaram nos telões, até que
surgiram os primeiros códigos e sociedades organizadas.
"Não adianta ficar escondido no meio das pessoas, Thomas.
Você é um mistificador", disse Roberta
se juntando a ele no meio da massa.
"De que adianta mostrar o desenvolvimento da agricultura, os primeiros
cultos, a descoberta do metal, se tudo isso levou o homem apenas a erguer
muralhas para se proteger dos outros homens ?"
"Isso não importa. O homem foi feito para lutar com o próprio
homem. O que vale mesmo é que do conflito veio o estado organizado,
a escrita foi aperfeiçoada e eles começaram a construir as
primeiras cidades, ainda que fosse para destruí-las em seguida."
Imagens de misticismo, poesia, guerras, ouro, pálacios, o aprofundamento
da dúvida filosófica, as religiões, a matemática,
a medicina, tudo ia acontecendo diante dos olhos cada vez mais deslumbrados
dos convidados, que acabaram por desembocar em Cristo. Fim do primeiro
movimento.
Thomas caminhava apressado pelo meio da multidão e Roberta gritava
atrás dele, contestando tudo o que via.
Um garotinho que ouve a discussão chega a Thomas e pergunta:
"Como é que você se chama?"
"João@merda.net.br."
"Fuck you", responde o garoto, puto da vida.
"A realidade é instável, desordenada e aleatória.
Não é cronológica como você está querendo
fazer as pessoas crerem através dessas setas e da sua cronologia
da história da humanidade."
"Eu sei que não existe uma linearidade entre causas e efeitos,
mas a consciência do homem ainda não está preparada
para novas realidades, não está preparada para a anarquia
e para a revolução no plano social e artístico."
No segundo movimento os mais de mil anos de cristianismo que garantiram
a fé e preservaram a estagnação da idade média
eram ilustrados por contornos de homens feitos de clips de papel. Eles
se davam as mãos, apoiados em trapézios que desciam das nuvens.
Depois a sede de novas descobertas, o aperfeiçoamento dos instrumentos
de navegação, a atração pelo dinheiro, pelo
individualismo, pela fama pessoal, fez com que esses homens descessem das
nuvens e vestissem pesadas roupas.
"É tudo como em seu livro, Thomas. Você fala, mostra,
projeta e não diz absolutamente nada. Continua criando obras como
sempre fotografou: usando filtros, efeitos especiais, objetivas que deformam,
para esconder a sua incapacidade de subverter a estrutura convencional
dentro de um enquadramento objetivo e científico."
"Eu sei que você me adora. Se a IDT me garantir o projeto
no Brasil eu já me dou por satisfeito."
"Do que eu vi até agora, não gostei de nada."
"Mais tarde vamos discutir isso."
Uma adolescente reconhece Thomas e se aproxima:
"A vida é mais bonita fora de foco, cara. Às vezes
vemos ao longe cores e movimentos que nos parecem bonitos, elegantes, mas
quando focamos percebemos o feio. A textura e a forma das suas mais diminutas
partículas, quando colocadas sob uma lente macro, são feias."
"Talvez você tenha razão."
A descoberta das leis do universo pelos filósofos e cientistas
alavancaram as grandes revoluções que mudariam o mundo, e
essa fase da humanidade era mostrada de uma perspectiva com o ponto de
fuga debaixo da terra. Torres de energia subiam da superfície do
planeta e tentavam suportar um grande balé de nebulosas, furando
os céus.
No meio da multidão um homem se desespera. Tenta seguir as setas,
se perde, e é envolvido por elas. Para em um orelhão, puxa
o seu cartão magnético e liga para lugar nenhum. As pessoas
mais equilibradas continuam a seguir as indicações, e ao
mesmo tempo acompanham as imagens no telões.
"Em que parte da história estamos ?" pergunta uma mulher
ao marido.
"Newton está descobrindo a lei da gravidade", ele responde
mordendo uma coxa de frango crocante.
Thomas tromba com Bill, um amigo de infância, agora astrônomo.
"Tudo isto é inútil, Thomas. Há uma probabilidade
pequena, mas verdadeira, de que um cometa atinja a terra nos próximos
10 segundos, e acabe com a raça humana."
"Trabalhe para diminuir esse risco, e me esqueça."
Um homem nu corre em direção aos espectadores, fugindo
do horizonte em chamas, e trens automatizados cruzam o planeta em alta
velocidade. É o terceiro e último movimento - o começo
do tempo atual. O homem aprende a voar e começa a se locomover com
mais facilidade pelo planeta. As primeiras calculadoras se transformam
em poderosos computadores, e o homem começa a ter cada vez mais
pressa.
As imagens se sucedem. Os mesmos contornos das pessoas que se davam
as mãos agora empunham máquinas fotográficas antigas
e começam a fotografar os espectadores. Um executivo tenta fazer
voltar os imensos ponteiros de um relógio dourado e uma modelo ri,
sentada no chão, ao som de um velho hino de Stockhausem.
Thomas tromba com Lou, piloto de dragster, contemplando a imagem de
dois surfistas, caminhando com suas pranchas coloridas em direção
ao sol.
"E aí Lou ? Os esportistas são pessoas felizes ?"
"Não. Eles são tristes porque não conseguem
enganar ninguém. Eles querem concorrer com Deus, mas não
conseguem sequer ser Cristo. Os políticos, os atores, os empresários,
podem mentir. Os esportistas não. Eles não podem iludir,
eles tem de mostrar que sabem fazer. E isso os faz solitários e
tristes. Como eu."
No salão principal os empresários se deslumbram, tentando
acompanhar a grande dança de imagens. Grande chance de se viabilizar
o projeto de Thomas.
Homens e mulheres, com roupas de executivos, caminham sobre linhas de
gráficos que furam as nuvens como escadas que não levam a
lugar algum. Os empresários estão sendo agredidos, mas parecem
gostar. Não entendem, mas aplaudem.
"Fabuloso ! Essa é a criatividade do novo milênio."
Longos aplausos idiotas.
"São imagens mais fortes do que as nossas nostálgicas
trips de LSD."
Os homens feitos de clips agora não mais contornos, mas superfícies
sem rosto, que novamente se dão as mãos e dançam nas
nuvens.
Ao chegarem ao grande salão VIP central, Thomas definitivamente
deixa Roberta para trás e caminha ansiosamente na direção
de Fernanda, que observa tudo muito distante, do alto de sua beleza, enfiada
em um terno de seda preta amassada.
Antes que consiga falar, ela tapa sua boca com a mão e dispara:
"Esses seus personagens caminham sobre linhas de gráficos
que furam as nuvens, mas não levam a lugar algum. Eu não
financiaria um projeto desses, mas tenho certeza que você conseguirá.
Os empresários se impressionam com qualquer tipo de arte que eles
não conseguem entender. E você sempre joga com isso."
"Você está cada vez mais puta e mais gostosa."
"Você também está cada vez mais puto e tarado.
Sabe o que dizer para me agradar."
"Isso é o que eu chamo de uma comunicação
perfeita."
Uma voz sexy de mulher invade o ambiente, dizendo poesias eróticas
e apocalípticas. Os corpos de um homem e de uma mulher, nus, protegidos
por lençois brancos, atravessam as diversas telas. O branco é
substituido por outra mulher nua, mas colorida, com as mãos sujas
de tinta. Ela está nervosa e aperta as suas mãos contra uma
placa de circuito integrado. Sente a dor dos pontos de solda, fica com
raiva e atira a placa em um espelho partindo-o em pedaços.
"Eu sempre imagino você me comendo em um estádio de
futebol. O meu corpo estirado por cima das cadeiras, a minha blusa abaixada,
as minhas pernas abertas, e você no meio delas."
"O meu tesão pela estética e a sua tara por locações
para o amor nos completa."
"Vim de Paris por nós. Quero que amanhã você
esteja em Veneza . Tem uma nostálgica surpresa fotográfica que você não pode perder.
Depois de amanhã você voa para Paris: tenho mais novidades em meu estúdio.
O convite é irrecusável. Já fiz as reservas. Voamos
amanhã cedo."
Os dois surfistas nostálgicos e digitais contemplam agora o nascer
do sol, com suas pranchas coloridas. Algumas chaminés de usinas
antigas, soltando fumaça, servem de cenário para a amarelada
e quente paisagem. Anjos com os rostos pintados e olhos tristes observam
um maestro regendo a sua orquestra. Close dos olhos tristes. Das mãos
do maestro. Fora de foco. Os empresários aplaudem. Dois homens deixam
os seus rastros na areia dourada de fim de tarde. Uma homenagem a Antonioni.
Fernanda continua a provocar.
"Tão pouco tempo depois da saturação das imagens
digitais e você consegue reinventar o vídeoclip, e ainda agradar.
Como as pessoas são idiotas!"
"Eu vou fazer o ser humano imerso nesse mundo digital voltar a
raciocinar analogicamente. Isso vai aumentar novamente o tesão entre
o homem e a mulher."
"As radiações aleatórias que escapam dos buracos
negros dessa sua cabeça não vão conseguir alterar
a ordem natural do universo."
O homem das cavernas e o do cartão de crédito trocam energias
. Aquele risca as paredes de sua caverna com lascas de pedra. Este saca
o cartão de crédito e cruza o planeta, como se estivesse
atravessando os cômodos de sua casa.
Ardentes aplausos empresariais.
Leo Berstein, proprietário de três canais religiosos, chega
meio bêbado em Thomas e dispara:
"O que é que você pode criar para que a nossa presença
na rede seja a maior do planeta no início de milênio ?"
Os homens feitos de clips se desfazem.
"O que eu posso criar não faz parte dos meus limites, mas
de quanto você pode gastar, idiota."
"E eu garanto a você que esses limites não são
o dinheiro que eu tenho para gastar, mas o quanto a sua imaginação
pode atingir."
A música sobe, e o diálogo é interrompido.
"Você é ocioso, inútil e pretencioso. Fuck you."
Outro empresário, estilista de moda, viado, também chega
em Thomas.
"Beautiful. O que eu crio é o que eu vejo nessas imagens:
uma moda de rua, confortável, de qualidade e apelativa."
As palavras lhe pareceram interessantes, mas Thomas apenas retribui
com um sorriso.
"Fuck you too", acaba resmungando baixinho.
Uma mulher vestida de roupas brancas transparentes estende a mão
aos espectadores e procura ajuda, pergunta sobre a origem
do universo. Close no seu rosto. No seu olho. Um gigantesco close do
olho humano enche as telas. O globo ocular é o planeta terra, e
uma lágrima colorida rola diante dos espectadores, de tela em tela,
até se arrebentar no chão, molhando as pessoas.
"Nada mais kitsch e ridículo, Thomas."
"A massa continua adorando qualquer coisa que se projete em paredes
virtuais."
Fim da apresentação. Palmas frenéticas.
"Parabéns, Thomas. Esse espetáculo ficou melhor do
que tudo feito antes dele."
Empresários, convidados e amigos se avolumam ao redor de Thomas
para parabenizá- lo, mas tudo aquilo começa a incomodá-lo.
"Vamos sair daqui, Fernanda. Preciso ir até o Great Balls
respirar um pouco daquele ambiente poluído."