Plano VidaExpozicione Fotografica di Thomas G. Marasco


Em lugares como Veneza uma exposição fotográfica não é um encontro de arte mas de turistas, assim como todo o resto da cidade, apesar da mais pura arte que se encontra em todos os cantos.. Eles pagam a entrada, olham tudo muito rapidamente, recolhem todos os papéis que possam mais tarde atestar a sua participação no evento e partem apressadamente atrás de uma outra oportunidade que possa também confirmar, mais tarde, o registro da sua presença nos diversos pontos turísticos e culturais da cidade. Uma espécie de curriculum vitae de turista. De repente o fotógrafo fica famoso, ou morre, e essas recordações, esses registros, reforçam o status desses turistas anônimos que transitam pelo mundo como verdadeiras formigas.

Antes de entrar no interior da antiga casa fico encostado anonimamente em uma viga da varanda do velho casarão, de um ponto em que dá para observar todo o ambiente interno onde acontece o evento. De onde estou desce uma velha escada de madeira, que leva a um belo jardim completamente florido apesar da estação. Velha Escada de Madeira

A menos de cinco metros da escada, à minha frente, uma bela italiana vende os ingressos. Como tudo foi arranjado pela Fernanda, estou completamente anônimo, a não ser pelo meu nome estampado em uma enorme faixa de veludo vermelho, com franjas, colocada sobre o grande portão de ferro, na entrada do antigo casarão. "Expozicione Fotografica di Thomas G. Marasco". Ao lado do meu nome uma máscara, um símbolo forte em Veneza, para mim mais forte do que toda a arte de seus castelos.

Ja havia estado naquele lugar alguns anos antes, debaixo de uma badalação bem maior, em uma exposição comemorando os não sei quantos anos da morte da Diane Arbus. Mesmo naquela exposição, em que a cidade estava repleta dessas faixas de veludo vermelho - em quase todas as esquinas havia uma faixa franjada e a indicação do lugar -, não consegui deixar de sentir aquela sensação do quanto é solitária uma exposição fotográfica, principalmente no caso de Diane, cujos personagens nos olham patéticos e a fotógrafa está morta, nos enquadrando lá do céu.

Em determinado momento decido entrar, anônimo, para sentir o clima, principalmente para ter certeza que estou realmente só nisso tudo. As imagens de Fernanda se espalham por todo o ambiente, em dimensões gigantescas para uma exposição fotográfica. A primeira sensação é gratificante. O ensaio feito com ela há mais de dez anos está pendurado nas paredes com uma força muito maior do que eu jamais poderia imaginar.

Tenho vontade de ter Fernanda ao meu lado, para não me sentir tão só. As pessoas se espantam, riem, comentam, nas mais diversas línguas, mas a sensação é de que não estão entendendo realmente nada. Penso em começar a gritar para explicar mas me contenho. Deixo o ambiente deprimido, pensando em não voltar mais ao lugar. Piazza de San Marco

Dou uma volta pelas ruelas e acabo sentando na Piazza de San Marco para tomar uma cerveja ao som de uma insossa banda. O excesso de turistas tirando fotos me incomoda. Penso na exposição e decido não deixar barato essa minha passagem por Veneza. Deixo a praça, caminho até a ponte de Rialto e sento em um bar qualquer à beira do Grand Canale para tomar algumas garrafas de vinho ao som dos violinos dos gondoleiros que levavam as formigas para passearem em seus esquifes flutuantes.

Quando sinto que estou no ponto, deixo o bar e me dirijo para a exposição. Entro pelo grande portão de ferro, subo a escada florida e chego ao centro do imenso salão, pedindo atenção. Diante do espanto geral, esclareço que sou o autor daquelas fotos e começo a falar aos berros.

“Vocês não estão entendendo nada.”

E repito, aos gritos, mais ou menos o que eu e Fernanda havíamos escrito por ocasião da concepção da obra, misturando com as palavras que Roberta costumava usar para definir a minha fotografia. Alguns ficam olhando e cochichando, outros prestam atenção, procuram entender o que eu digo, em nossa estranha língua. Diante de um espanto generalizado, concluo e me retiro, decidido a não voltar mais àquele lugar - desta vez em definitivo.